A árvore eterna
- Edgard Leite

- 23 de jun.
- 4 min de leitura

Karl Jaspers (1883-1969), certa vez, observou que
“a história da humanidade em grande parte desapareceu da memória. Somente por meio de investigação e da pesquisa ela se torna acessível e, mesmo assim, apenas em pequena medida. A longa obscuridade da pré-história, fundamento de tudo o que se segue, mal é rompida pela tênue luz que podemos lançar sobre ela”.
O enigma da pré-história é, realmente, profundo.
Mas todo passado é, igualmente, enigmático. Os marcadores documentais que temos para entendê-lo são parciais, esparsos e desconectados uns dos outros: apenas a imaginação histórica permite reconstruir elos entre esses elementos. Quando falamos dos ditos tempos históricos temos textos, imagens, planilhas, discursos, que servem como pontos concretos a partir dos quais construímos narrativas explicativas.
Mas quanto mais nos aprofundamos no passado, mais raros se tornam esses elementos escritos, discursivos e narrativos, que traduzem sentimentos, vontades, ideias e conceitos, registrados em palavras e sentenças que podemos entender. Sabemos que a leitura dessa tradição escrita é feita a partir de nosso tempo e de forma imaginativa, normalmente indo além ou permanecendo aquém de seu significado original, a serviço de nossas questões presentes, principalmente pessoais.
Buscamos, nesses documentos escritos, substâncias que sobrevivam à passagem dos momentos, que permitam estabelecer elos entre os instantes desaparecidos e nosso instante presente (igualmente já desaparecido quando nele nos concentramos). Pois somos capazes de, nesses vestígios, reconhecer o que somos, nossas questões enquanto seres existentes neste tempo e portadores de sentidos.
Não há muita unanimidade nessas leituras do passado, pois a visão que temos dele é sempre particular - pois emerge acima de tudo da pessoa que as faz. Mas como se tratam de palavras, sempre alguém poderá aplicar alguma lógica entre relatos, ideias e conceitos que inviabilizará ou reafirmará esta ou aquela versão e interpretação. E no redemoinho dos poderes pessoais no campo do pensamento, determinadas visões serão tidas como erradas. Mesmo que sejam, apenas, visões pessoais.
Mas o problema da pré-história é mais grave e mais difícil, mesmo considerando a realidade imaginativa das narrativas. Não havia, naqueles tempos remotos, qualquer escrita que que pudesse tratar, por exemplo, de ideias e conceitos.
Existem, como se sabe, construções megalíticas, sepultamentos, artefatos. Nestes encontramos, sem dúvida, razões. Alguns observam que, nas construções megalíticas, a disposição das pedras era relacionada com as estrelas, as estações, os horizontes. Como as pedras foram colocadas de pé, como foram encaixadas, normalmente é um mistério: não há escrita localizável e, portanto, não há manuais de engenharia ou de projetos registrados.
O maior mistério, no entanto, está nos grafismos. Civilizações da pré-história pintavam muitas coisas em paredes de cavernas. Milhares de anos antes da invenção da escrita, populações espalhadas pelo planeta se dedicaram, também por séculos, a desenhar, ou gravar, formas geométricas, animais, pessoas, eventos, em paredes rochosas.
Como anotou Andre Prous, há uma mensagem “por receber, pelas figuras desenhadas nos paredões, uma mensagem direta de seus primitivos autores; com efeito, são os únicos vestígios deixados consciente e voluntariamente pelos homens pré-históricos”. Que mensagem é essa? André Leroi-Gourhan, em seu As religiões da pré-história, entendeu que nas cavernas da Europa alguns animais apareciam retratados em lugares análogos, em diferentes cavernas, e certas relacões entre figuras similares eram repetidas em distintos murais de pedra, ao longo de séculos e em lugares diversos. Há, sim, uma lógica, mas o que ela significa?
A nossa imaginação é sempre e cada vez mais exigida quanto menos narrativas e discursos escritos encontramos ao avançar no passado. No momento em que a palavra desaparece, a imaginação se torna livre de referencias conceituais claras. Encontramos apenas imagens, livres de qualquer parâmetro analítico descrito ou narrado: uma profundidade de símbolos, ideias e talvez conceitos que anseiam a se tornar palavras.
Num mundo, como o nosso, que é razoavelmente hostil à imaginação, quando esta é desvinculada de alguma razão, estamos diante de algo realmente inalcançável. Um mistério absoluto. Tais vestígios são as primeiras manifestações de ideias e conceitos que podemos encontrar, no extremo passado. Mas elas nos atingem na pura sensação. André Prous e outros arqueólogos preferem evitar uma concessão descontrolada à fantasia. Podem ser que estejam certos. Escolhem sempre caracterizar esses grafismos por tipos, estilos ou tradições. E eles ficam assim, simultaneamente mudos e gritantes.
A mensagem que passam só pode ser reconstruída, por nós, através da pura imaginação. Há, nessas cavernas, formas reconhecidas, idênticas às que desenhamos usualmente de forma aleatória, ou encontramos no cotidiano, dando forma a objetos úteis. Há animais desaparecidos, e seres em interação com eles. Há pessoas interagindo umas com outras. Monstros. Círculos e objetos geométricos, abstrações de formas da natureza.
Olhamos, e pela imaginação, encontramos, às vezes, nessas cavernas esquecidas, desenhadas por mãos não conhecidas e que há muito desapareceram, representações que nos parecem conceitos mais elaborados, teses inteiras expressas em grafismo. Às vezes, dizemos, porque a qualidade dessas obras, assim como tudo que produzimos ainda hoje, é desigual. Eventualmente, esses povos antigos alcançam, no entanto, nossa consciência, de forma espantosa, e nos encantamos em ver proposições que nos parecem profundas: mostrando uma inquietante realidade que transcende a escrita, a formulação racional e o tempo.
Quando, num paredão esquecido de uma caverna no interior do Brasil, encontramos a representação de uma árvore, composta de desenhos que retratam seres viventes e símbolos universais, nos damos conta que se estabelece entre esses autores desconhecidos e nós uma conexão estranha e atemporal. Percebemos que estamos diante de uma ideia (ou de um conceito) seminal e universal, que vê na madeira, no lenho da árvore que cresce sobre um monte elevado, o elemento capaz de extrair, de uma pedra inanimada, ou da terra que compõe o nosso corpo, a existência de uma relidade invisível e de uma existência eterna. E assim, subitamente, reconhecemos o grafismo, e sabemos que ele está falando da tensão continua entre o transitório e o eterno. Tratando de uma percepção interior de nossa alma- a que lhe dá sentido, identidade e esperança.



