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Existem as essências?


Edgard Leite Ferreira Neto


No momento em que decidimos escrever estas linhas é necessário dizer: vivemos em um mundo cujos príncipes buscam inviabilizar a dimensão do essencial. Sustentam a inexistência de essências. Tudo que ocorre na vida vem sendo entendido, por eles e muitos que os acompanham, como apenas existência, isto é, não contendo em si nada além do existir. Não é visto como aceitável acreditar nem na eternidade nem no invisível. As pessoas são permanentemente estimuladas a viver como se tudo fosse uma sucessão de momentos transitórios, sobre os quais podem ter absoluto controle.


Isso é estranho e, embora não incomum em outros mundos do passado, marca o nosso cotidiano de maneira intensa. Significa que, imersos na instabilidade do momento, inumeráveis vivem, apenas, no prazer e na dor que marca essa contínua desagregação. Tudo é visto com desconfiança e dúvida e, decididamente, há cada vez menos amor. Acima de tudo porque esta é a maior das experiências essenciais, eternas e invisíveis. Pessoas de outros principados com os quais às vezes convivemos, localizados, por exemplo, no Oceano Indico, confirmam que isso é hoje lá, também, uma insistência comum.


O básico daquilo que nos identifica é realidade essencial desprovida de tempo. O amor, por exemplo, que sentimos por alguém, é imagem e semelhança de outro amor mais profundo que está na nossa origem. E quando ao próximo amamos, reconhecemos este amor que temos naquele que também ao próximo deu origem.


As memórias que temos também são imbuídas de essências infinitas, que atam entre si os fragmentos do passado e lhe dão um sentido que é simultaneamente pequeno, porque do mundo, e imenso, porque evocam coisas que estão além dele. Neste mundo em que vivemos, no entanto, as memórias são tidas como desprovidas de essências, e pouco significam para aqueles que em nenhuma intimidade eterna creem. Na medida em que suas ações no presente são desprovidas de experiências da verdade e a eficácia dos seus atos se resume ao poder e opressão que exercem no momento, assim também entendem as lembranças do passado. Essas são tidas por efêmeras, construções do tempo, e podem ser mexidas e transformadas por atitudes de opressão e poder no agora. Não se acredita que haja memória que possa atravessar o tempo com um significado essencial, conectando momentos com a eternidade. Assumindo novas figuras, que a memória encontra na transitoriedade do mundo, mas cujo conteúdo repousa na eternidade. Não se acredita em um significado essencial nas memórias. E, bem, também não se quer acreditar que haja sentido para além do acaso, por mais extraordinário que seja o acontecimento.


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