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Edgard Leite em dois relatórios do SNI: um testemunho.

Atualizado: 27 de jun.


Entre 1979 e 1983, eu e minha avó, Alejandrina Castro Ferreira, atuamos no movimento de solidariedade aos refugiados políticos do cone sul - que vinham ao Brasil a caminho de exílios mais seguros. A minha participação em tal movimento, intensa, mas clandestina, não escapou, no entanto, ao Serviço Nacional de Informações (SNI), que quase imediatamente (1981) me identificou como integrante, de alguma importância, em uma rede de apoio a grupos de esquerda sul-americanos:


"Além daqueles estrangeiros sob a proteção do ACNUR [Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados], outros existem que, residentes no País, desenvolvem atividades de propaganda subversiva contra seus países de origem. Dentre eles podem ser citados (... )Edgard Leite Ferreira Neto (ELFN)(...) Embora brasileiro, desde Jun 80 o nomeado recebe farto material de propaganda procedente da SUÉCIA, sendo o responsável pela distribuição da revista 'Cuestlon', impressa naquele país, a asilados sul-americanos residentes no RIO DE JANEIRO/RJ".


Na verdade, eu assim atuava, bem como em outras atividades correlatas a esse movimento, desde 1979. Ainda antes da Anistia.


Numa manifestação pela Anistia, 1978 ou 1979, eu fui fotografado nas escadarias da Câmara Municipal. Como os cartazes pedem liberdade para os presos políticos, provavelmente o acontecimento foi antes da Anistia.
Numa manifestação pela Anistia, 1978 ou 1979, eu fui fotografado nas escadarias da Câmara Municipal. Como os cartazes pedem liberdade para os presos políticos, provavelmente o acontecimento foi antes da Anistia.

A descoberta de meu nome pelo SNI decorreu de eu ter passado a utilizar uma caixa postal que eu, de forma distraída, aluguei em meu próprio nome.



Considerado como elemento subversivo, portanto, fui acompanhado pelos órgãos de informação, no âmbito daquele movimento específico, por conta do papel executivo que eu parecia desempenhar. Mais precisamente, a dizer a verdade, eu exercia uma espécie de secretaria de comunicação, contatando pessoas e organizações.


Toda essa movimentação política, que envolvia diversas organizações e ativistas, algum momento depois, com a crescente consolidação da abertura política, adquiriu o nome de Comissão de Solidariedade dos povos latino-americanos (COSPLAM).


Em 23 de março de 1982 a COSPLAM foi organizada, com um apoio suprapartidário, que reunia o PMDB, PDT, PT, (e também o PCB, PC do B e MR-8, segundo o SNI), a UNE e a UEE. Uniram-se, na COSPLAM, várias entidades. E também políticos e personalidades. Entre outros, Bayard Boiteux, Davi Capistrano, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Eduardo Greenhald, Perseu Abramo, Raymundo Faoro e Teresa Zerbini. No dia 18 de abril de 1982, como bem anotado no informe, a COSPLAM realizou manifestação em frente ao consulado uruguaio (na qual estive presente) quando então foi tornado público um manifesto em defesa dos direitos humanos naquele país e denunciadas as condições dos seus presos políticos.


Heloneida Studart escreveu, no Pasquim (no. 670, 29/4 a 5/5/1982), um relato desse evento:


"Semana passada, Bayard Boiteaux, várias entidades dedicadas aos Direitos Humanos, dirigentes sindicais e alguns deputados foram ao Consulado do Uruguai entregar ao Cônsul um abaixo-assinado com mais de 6.000 assinaturas, pedindo a Anistia para os presos políticos daquele país vizinho. Só foram recebidos os depu-tados, Bayard e um representante da ABI".


A reportagem da Tribuna da Imprensa, de 21/4/1982, é mais ampla, e registra que:


"O cônsul do Uruguai no Rio de Janeiro recusou-se a conversar com a delegação representativa das entidades que assinaram um documento pedindo a anistia dos presos políticos uruguaios. 'Esta atitude não nos desanima; vamos continuar a campanha", disse o professor Bayard Boiteaux, da Comissão de Solidariedade aos povos Latino-Americanos (CONSPLAM)'".


As atividades que eu desenvolvia nos bastidores daquele movimento não eram totalmente conhecidas, aparentemente, pelos orgãos de informação. Pois a minha presença foi anotada no relatório do SNI (que dá conta da criação da COSPLAM) de forma meio nebulosa repetindo o exposto no documento anterior:


"entre os brasileiros que cooperam na distribuição de material subversivo oriundo do exterior, figuram os seguintes"


e cita alguns nomes, entre os quais, o meu.



No entanto este mesmo documento dispunha de algumas informacões novas, pois afirma, numa lista que denomina os movimentos políticos estrangeiros, seus núcleos mantenedores e seus representantes no Brasil, e na COSPLAM, minha ligação com o Partido Comunista Uruguaio:



Posso dizer, quase cinquenta anos depois dos acontecimentos, que, capitaneado pelo ACNUR, e contando também com o apoio da Caritas, através da Arquidiocese do Rio de Janeiro, esse movimento de solidariedade, que culminou no COSPLAM, contou com a participação de muitos.


Todos, ali envolvidos, se dedicaram a buscar soluções para as dificuldades dos refugiados políticos latino americanos daquela época. Bem como tornar clara a situação precária dos presos políticos nos países do cone sul. Sabiam os participantes desse esforço de solidariedade que, provavelmente, eram acompanhados pelos orgãos de informação, e podiam sofrer qualquer coisa. Observemos que, embora o regime militar estivesse em declínio, o aparato repressivo estava plenamente ativo: vide os atentados da época, como o assassinato de Lyda Monteiro da Silva (27/08/1980) e o atentado no Riocentro (30/04/1981).


Em que pese essa realidade terminal, mas perigosa, do aparato de segurança e informação do regime, existia a disposição, pelo menos minha, de amparar pessoas perseguidas e nelas encontrar amizades, cumplicidades, afetividades e sentidos. Era bom estar com pessoas que exerciam a liberdade de consciência em situações extremamente difíceis. E era bom eu poder exercer a minha.


Minha participação nesse movimento foi notada de alguma forma, portanto, e, mais tarde, em 1990, pelo meu papel nessa história toda, o PCB indicou-me para compor a delegação brasileira ao Conselho Mundial da Paz, penúltima atividade desse conselho antes do fim da URSS. Como o evento foi em Atenas, na Grécia, pude encontrar um ou outro dos ativistas, que, da Suécia e do cone sul, tinham trabalhado comigo dez anos antes- e agradeci a eles pessoalmente. Mas o que houve realmente entre nós me pareceu obscuro e de difícil recuperação. Já éramos outras pessoas e a URSS estava próxima do fim. Reparei, então, que tudo no mundo muda, mas existem ações cuja justiça permanece para além de todas as circunstâncias.




A reunião do Conselho Mundial da Paz, ocorrida logo depois da queda do muro de Berlim, foi interessante e tensa, e os debates mostravam bem a tensão presente no movimento comunista internacional. Abaixo a lista oficial dos membros da Assembleia de 1990:




Alejandrino Castro(esq.), era meu primo, e cumpriu pena política na penitenciária de Libertad, no Uruguai, entre 1972 e 1985. Alejandrina Castro Cassou Ferreira(dir.) era minha avó, residente no Rio de Janeiro, onde atuou ativamente na solidariedade aos refugiados do cone sul que aqui estavam buscando refúgio. Acomodou a muitos em sua casa, graciosamente. Essa foto foi tirada após a libertação de Alejandrino e expressa bem, na expressão de ambos, o sucesso do apoio e da solidariedade geral, inclusive do movimento que existia no Rio de Janeiro.


O irmão de minha avó, meu tio-avô, Rodolfo Castro Cassou, também esteve preso em Libertad entre 1972 e 1978 e veio ao Rio, em determinado momento, para agradecer a todos nós. Lendo esses antigos documentos me lembro muito deles. E por eles, e por todos que aqui passaram, sempre guardarei um infinito sentimento de amor, ternura e gratidão.



Documentos:


1- Ficha de detento de Rodolfo Castro Cassou onde constam dados gerais, pessoais e de inteligência, e a organização à qual pertencia: O.P.R.-33, isto é, Organización Popular Revolucionaria-33 Orientales (OPR-33), era o braço armado da Federación Anarquista Uruguaya (FAU). Também consta o nome de sua irmã, minha avó Alejandrina Castro, o nome do marido desta, Edgard Leite Ferreira (meu avô) e o fato destes residirem no Rio de Janeiro.


Fonte: Archivos del Terror de Uruguay - Archivo SID (Berrutti) - Rollo 470 - Carpetas liberados del EMR1 nro 249 al 293.pdf


2- Dados de inteligência de Alejandrino Castro Lopez onde consta a organização à qual pertencia: M.L.N. isto é, Movimiento de Liberación Nacional - Tupamaros (MLN-T).



Fonte: Archivos del Terror de Uruguay - Archivo SID (Berrutti) - Rollo 540r - Carpetas liberados del EMR1 nro 203 al 590 - faltantes al microfilmar.pdf


Nota da Tribuna da Imprensa, 21 de abril de 1982:



Nota do Pasquim, no. 670, 29/4 a 5/5/1982:



Os dois relatórios do S.N.I. que mencionam as atividades clandestinas de Edgard Leite Ferreira Neto podem lidos aqui:


BR_DFANBSB_V8_MIC_GNC_CCC_81004875_d0001de0003.pdf (1981):


br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ccc_82005986_d0001de0001.pdf (1982):


Informações sobre os presos políticos uruguaios podem ser obtidas aqui:




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