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Passos na existência


Edgard Leite Ferreira Neto


A ideia de que somos existencialmente pequenos, isto é, a de que somos menores diante da grandeza do mundo, dos desafios da vida e da realidade da morte, deve ser horizonte essencial para nosso crescimento. Mesmo quando crescemos e nos tornamos algo que nos parece ser importante ou grandioso.


Por mais que realizemos algo relevante, em nossas vidas íntimas ou públicas, sempre perdurará essa contínua realidade, essa fragilidade fundadora de nossa transitoriedade e de nossa solidão frente ao enigma das coisas.


Assim, é certo que em cada passo que damos nessa jornada de construção de nossos vínculos no mundo, que sempre é marcado por sucessos e fracassos diante de objetivos a nós postos pelo visível, podemos perceber que avançamos apenas em limitadas margens de nossa existência. Limitadas porque a temporalidade nada sustenta de duradouro e porque o extraordinário devora toda expectativa.


Alguns, de forma estranha, tem o hábito de achar que cada passo bem sucedido os colocam em posição de domínio sobre o universo e que saber algo e repetir esse algo com sucesso faz com que a pequenez desapareça, ou seja superada. Acreditam que se pode ter domínio sobre o tempo e as expectativas. Se alguém lhes aponta o quão pouco andaram se irritam, e podem, inclusive, matar aquele que, às vezes por mera obviedade, argumenta que não saíram muito de onde estavam antes.


É evidente que há grandes ganhos em dar passos bem sucedidos. É motivo de orgulho dá-los, principalmente quando orientados por boa conduta e capazes de ajudar outros a dar passos dessa maneira. Tratam-se daqueles passos que permitem entender a fragilidade da existência e também aceitar essa tibieza como parte da condição humana. Quando assim é, é certo e bom. Reafirma que somos pequenos e propicia que dessa maneira real nos encontremos com nós mesmos.


Mas o mais importante, quando se é pequeno assim, é que tal dimensionamento nos permite entender que há grandeza contida na pequenez. Não em ser, essa pequenez, maior do que é, neste mundo de transitoriedades. Mas porque, por ela, podemos perceber que esses pequenos e menores passos no mundo só podem ser significativos quando são grandes na eternidade.


Aceitar que somos pequenos neste mundo nos coloca diante da verdade daqui mas nos exige olhar a grandeza daquele movimento que nos colocou nesse universo de desafios. Porque o ser é pequeno neste universo onde tudo é transitório. Mas imenso quando olhamos a sua fonte infinita. Na existência é cinza e poeira mas, na essência, eterno. Neste campo, varrido pelo tempo, contínua solidão, naquele outro, iluminado por uma fonte que nunca morre, é permanentemente amado.


Por isso é que na pequenez de nossos passos podemos encontrar o amor, que nos ata à profundidade dAquele que nos pôs a andar.



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