Prédica de Edgard Leite no Grande Templo, 11/05/2018

Atualizado: 19 de Mai de 2018

Caros amigos,


Em português denominamos HaShem com a palavra Deus. Vocábulo de origem latina, que tem a mesma raiz da palavra "dia". Por isso Deus pode ser traduzido como “o Luminoso”. Aquele que ilumina.


No entanto, quando Moisés pergunta a Deus qual o seu nome, Ele responde “Eu sou aquele que é” (Ex. 3:14). Ou seja, sua identidade não é definida por outros ou por relação a outras coisas, como nós e as coisas deste mundo o são. Ele é Eterno e Infinito. E por isso também traduz-se do hebraico para o português como “O Eterno”.

Mas há um elemento bonito na palavra latina. E por isso a utilizamos. Nela está dito que HaShem ilumina.


E, de fato, quando Moisés desceu do monte Sinai a pele do seu rosto resplandecia, “porque falara com Deus”. A tal ponto brilhava que foi necessário cobri-lo com um véu (Ex 34:29-33).


Hoje celebramos o Yahrtzeit do Rabi Saadia Gaon (892-942). Saadia Gaon era um filosofo muito preocupado com questões literárias e, principalmente, com a poesia. Com frequência, a ela recorria para entender a profundidade dos temas bíblicos. Cuja dimensão poética lhe era conhecida e admirada.


A ideia de que a Torá é uma obra repleta de poesia não é, portanto, estranha à tradição rabínica. Quando dizemos que Deus ilumina, e iluminou o rosto de Moisés, dizemos que o Seu Espírito faz resplandecer a consciência humana, e nos guia pelo caminho da luz, da sabedoria, da redenção. E compreendemos isso através de um texto entendido como metáfora. Metáfora poética.


Quando vivemos momentos difíceis, sombrios e tristes, recorremos a Deus como guia e sinal de esperança na escuridão do mundo. E o conforto que Dele advém é subjetivo e emocionante. É intraduzível pela razão, perceptível apenas pelo sentimento. Experiência poética.


Simeon Ben Zoma (séculos I-II), no Talmude, explicou o Eclesiastes, um livro particularmente poético do Tanach. E recorreu, precisamente, aos sentimentos, para entender a presença do Espírito de Deus nos homens:


Diz o Eclesiastes: “a tristeza é melhor que o riso” (7:3). Explicou Ben Zoma: “trata-se da tristeza que o Sagrado, Abençoado Ele seja, dirige aos justos neste mundo”.


Porque, diz o Eclesiastes, a “tristeza do rosto faz melhor o coração”. Torna mais profundo e verdadeiro o ser humano. Por ela aprendemos a viver. E isso é importante, essencial, para a nossa libertação.


E quando o Eclesiastes diz: “E eu digo do riso, que é para ser louvado”, explica Ben Zoma que se trata do riso “que o Sagrado, Abençoado Ele seja, compartilha com o justo no mundo que virá”.


“Assim, eu celebro a alegria” (8:13), diz o Eclesiastes, “porque a Presença Divina” afirma Ben Zoma “repousa sobre o homem não através da melancolia, nem na preguiça, nem na frivolidade, nem nas conversas tolas, mas sim através da alegria, em conexão com uma mitzvá”.
Isto é, alegria é aquela alegria que constrói relações positivas, e o bem.

E o mestre, por fim, cita o profeta Elisha. Este foi convidado, pelo Rei Joshafat (c870-849 a.C.), para profetizar. Elisha disse apenas: “trazei-me agora um músico. E aconteceu que, enquanto o músico tocava, a mão do Senhor veio sobre ele” (2 Reis, 3:15) (Shabbat: 30b).


Os bons sentimentos, a poesia, a música, nos aproximam de Deus, tornam perceptível a sua presença, inexplicável pela razão. Iluminam nossas almas. Permitem que vivamos seu Espírito em nossas vidas.


Na parashá desta semana, Deus adverte os judeus de muitas maneiras, sobre os perigos de seus descaminhos. E como tantas coisas ruins acontecem e acontecerão com eles, por conta do distanciamento humano do Espírito divino. Mas HaShem diz que, apesar de tudo,


“Também eu me lembrarei da minha aliança com Jacó, e da minha aliança com Isaque, e também da minha aliança com Abraão me lembrarei, e da terra me lembrarei” (Lv 26:42).


A lembrança não é, aqui, um mero ato de memória. É um sentimento profundo, um dos mais queridos sentimentos de Deus. Sentimento de redenção: pois acolhe em sua memória, com ternura, o ser humano, a condição do homem, e a terra na qual os homens habitam.

E a nossa terra, Eretz Israel.

Ao lembrar-nos, com amor, de nossos ancestrais, de nossos amigos, de nossos compromissos com a vida, compartilhamos com Deus um sentimento. Aquele que nos une, à nossa condição, à condição humana, à terra.


Assim funciona a experiência poética bíblica: pelos sentimentos nos unimos a Deus. E são esses sentimentos que nos iluminam. Nos enchem com o Seu Espírito.


Por isso é correto dizer que Deus é aquele que ilumina. É através da luz divina que apreendemos essa maior trama poética sagrada: a Torá. Manifestação de sua luz eterna. Dissipadora de toda escuridão. Fonte daqueles nossos sentimentos que são simples e bons.


Shabat Shalom!



Prédicas anteriores:

13/04/2018

9/03/2018

2/02/2018

Projeto Grande Templo

  • SoundCloud ícone social
  • Facebook ícone social
  • d499bf9074133db295373575066f97e4_1562267
  • academia_edited
  • YouTube Social  Icon
  • DR_IR_simbolo_final_c-05

© 2020 by Edgard Leite