Prédica de Edgard Leite no Grande Templo, 12/4/2019



Prezados amigos:


Aproximamo-nos de Pessach.


Esse é um dos momentos centrais da religiosidade judaica. A lembrança das maravilhas realizadas por Deus, no Egito, é um dos pilares em torno dos quais se ergueu a crença dos judeus no poder de seu Deus, o Deus de Israel.


Um dos temas de Pessach é a liberdade. Mas qual liberdade?

A escravidão dos judeus no Egito é um tema de profunda significação, e pode-se olhá-la de diferentes lados.


Remete, por exemplo, à servidão da condição humana diante do mundo. Somos escravos da nossa própria existência.


Diz respeito às injustiças de uma sociedade e de um universo caracterizados pela morte. Somos servos de nosso destino: a mudança contínua da vida, o seu caráter imprevisível.


Discute a natureza das estruturas sociais e a fragilidade de suas desigualdades, onde quem tudo tem pode nada ter e onde o despossuído pode ter tudo. Estamos submetidos às escolhas que fazemos: o que queremos ter ou não. O que fazemos com o que temos.


Diz respeito à história de um povo reduzido à condição de propriedade de outro. Fala de nossas jornadas vitais, tantas vezes oprimidas por aqueles a quem servimos ou com quem convivemos.


O fundamental nessa história é que Deus liberta o povo hebreu. Ele passa por cima da servidão humana, da fragilidade das estruturas sociais, por cima da natureza, das hierarquias e da história.

Movido pelo amor e pelo compromisso, HaShem realiza alterações tão intensas na natureza das coisas que a liberdade, como um alívio, surge de uma ruptura com aquilo que existe.


A liberdade emerge na transcendência do mundo.

A continuar no mundo haveria escravidão, Rompendo com sua natureza, alcança-se a liberdade. Liberdade que é redenção.


Não é, assim, gratuito que a liberdade culmine em um conjunto de leis, os Dez Mandamentos.


E isso se dá em contraponto ao desastre que a ausência da lei provocava: o culto ao bezerro de ouro, a escravidão ao mundo, ao seu destino mortal, à condição ignorante de um ser que só se realiza no efêmero.


De fato, continuariam escravos, os hebreus, se não tivessem essa lei, esse conjunto de normas, sagradas, divinamente inspiradas, que passam a orientar o seu agir, suas atitudes e mesmo o seu pensamento. Do ponto de vista legal, do ponto de vista moral e do ponto de vista ético.


Mas como é possível que a liberdade implique em obediência, em Lei? Isso deixou os hebreus perplexos e continua colocando os adolescentes diante de infinitos dilemas.


De fato, a verdadeira liberdade não é a de estar livre da autoridade. É estar livre da natureza fragmentada e dolorosa do mundo.

E isso só se alcança através da aceitação de uma norma de conduta que eleva a consciência a um nível superior ao da existência visível. Superior ao dos nossos desejos, de nossas paixões. Pois são estas que nos escravizam, que nos iludem.


A Lei é a liberdade.

A Lei de Deus, buscando disciplinar nossa frágil, precária e mortal condição, que busca no efêmero algo que lá não está, nos desloca a um outro nível de existência. Próximo à eternidade, ao imutável, ao infinito, aos valores éticos que emanam da misteriosa consciência de Deus.


Ser livre não é não obedecer a ninguém. Ser livre é obedecer a Deus. Ser livre é poder dizer não às coisas da terra, à natureza do mundo. Dizer não ao que nos afasta dos valores eternos. E é nestes valores que encontramos a liberdade.

Essa é uma das mensagens contidas nessa história absurdamente real, de transcendência.


Na qual, num momento sublime, atravessamos o mar de todos os pecados e fragilidades humanas na direção de Deus e de sua Lei.


Aquela Lei que liberta nossa consciência e conecta nossa alma ao Absoluto e ao Eterno.


Shabbat Shalom!

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