Prédica de Edgard Leite no Grande Templo, 13/04/2018

Atualizado: 9 de Mai de 2018

Prezados amigos,


Vivemos, nesta semana, dois pontos centrais da nossa memória.

Num, recordamos um dos momentos de maior sofrimento do povo judeu. Noutro, um de seus instantes mais sublimes.


No Iom Ha Shoah vivemos uma insuportável dor. Dor muitas vezes repetida na história. Descrita, de forma profética, por Jeremias:
Caímos nas mãos de nossos adversários e não havia quem nos socorresse, nossos inimigos nos viram e fizeram escárnio de nossa ruína (Lamentações 1:7).

Milhões atravessaram os limites entre a vida e a morte. Toda uma civilização, a civilização ídiche, milenar, foi pulverizada em poucos momentos.


No Iom Ha'atzmaut vivemos, por outro lado, o sentimento que advêm da realização da promessa de Deus a Abraão. Descrita, também profeticamente, por Josué:
"Agora o Senhor vosso Deus deu repouso a vossos irmãos, como lhes tinha prometido; voltai-vos, pois, agora, e ide-vos às vossas tendas, à terra da vossa possessão, além do Jordão”(Josué 22:4).

Vivemos, entre 1939 e 1948, nesse curtíssimo momento da história, uma tensão que exigiu do povo judeu um esforço coletivo maior, gigantesco.

Deslocamo-nos da exaustão do genocídio ao repouso, sob nossas tendas, na terra prometida.

Mas que repouso?


Percebemos, como percebeu Josué, ao cruzar o Jordão, que o repouso que foi dado a Israel, na sua terra, era também esforço, e esforço imenso.

Jorge Luiz Borges escreveu um poema, intitulado Israel, onde refletiu sobre a realidade do país, após a guerra dos seis dias. Nele apontou a grandeza desse esforço:


"Serás um israelense, serás um soldado/ Edificarás a pátria com lodaçais e a erguerás com desertos/ Uma única coisa te prometemos:/ teu posto na batalha".


Edificar a Nação com lodo e ergue-la com desertos. E, ao mesmo tempo, guerra. Que repouso?


Mas, na complexidade, tantas vezes caótica, da história judaica, foi, a proclamação do Estado de Israel, um momento sublime. Legítimo, sob quase universal contestação. Pacífico, sob as nuvens da guerra.

Momento análogo, em sua glória, àquele que Josué e os israelitas viveram, ao atravessar o Jordão.

Todas as dores, e todas as alegrias, todas as certezas, e dúvidas, estavam reunidas num momento, descrito no Livro de Josué. E que ocorreu, novamente, diante dos nossos olhos.


Como entendeu Josué e, como antes dele, compreendeu Moisés, a conquista da terra prometida era uma experiência de imenso e paradoxal esforço humano.


Continha desafios morais e éticos quase infinitos.


Somente a certeza da promessa de Deus poderia sustentar tal empreendimento, tal conquista: a redenção da terra prometida e a do espírito.

HaShem sempre advertiu que tal conquista deveria ser fruto de uma guerra, ou de muitas guerras.


Os horrores da Shoah estão na alma do Estado judeu restaurado. Pois todas as dores da nossa história estão contidas na experiência da redenção.


Não apenas a redenção histórica, a conquista de Israel. Mas a redenção do espírito. Pois ambas nos exigem uma elevação de valores, uma convicção moral que nos aproxima da Eternidade.


E assim nos damos conta que a elevação do povo judeu é também a elevação da consciência dos judeus. Sempre é assim. Assim nos afirma toda literatura bíblica e talmúdica.


Nos erguemos de uma situação de horror e humilhação, para a de um povo vitorioso, sob nossas tendas, além do jordão. Esse é o repouso, de que fala Josué. Repouso é elevação.

Fomos escravos no Egito, e repousamos no outro lado do Mar Vermelho. Sofremos no Sinai, e repousamos do outro lado do Jordão. Nos desfizemos na Europa e repousamos em Israel.

Mas, como acontece na nossa própria vida, não é um repouso gratuito, mas conquistado, nas lutas das nossas consciências e no combate inteligente contra nossos inimigos. Internos e Externos.


Quando Ezequiel estava diante de Deus, um anjo lhe trouxe um rolo onde estava escrito “lamentações, suspiros e prantos”. “Come este rolo” disse o anjo, "e fala à casa de Israel”. “Então” disse Ezequiel, "eu o comi, e era na minha boca doce como o mel” (Ezequiel, 2:10 - 3:1-3).


Na vida, a dor e a alegria sempre se misturam. Assim também na história dos judeus.


O projeto da Torá para o povo judeu, na história, não é o de uma existência irreal, desprovida de esforços.


Mas o de uma vida que emerge do combate contínuo diante da dor, da perda, da mudança. O projeto da Torá é um projeto de redenção e vitória na vivência do mundo como ele é. Não como fantasiamos que ele seja.


Que vitória? Vitória de nossos valores, do espírito sagrado que move nosso povo, de nossa consciência.


E sempre, desde os primeiros combates descritos na Torá, e, depois, no Livro de Josué, vitória de nossas armas. E nenhuma hesitação, diante dos que se coligaram para nos combater.

Das cinzas da Shoah reconstruímos nossa terra prometida, no nosso esforço erguemos o Estado de Israel.


Milhões de mortos ao longo da história o sustentam. Milhões hoje, vivos e mortos, se esforçam para manter nosso repouso. Continuamente.


Enfrentando os que nos querem eliminar: os nossos pecados e os nossos inimigos.


Nos nossos desafios e pelos nossos méritos nos construímos como pessoas e povo.

Disse Moisés, no seu derradeiro discurso ao povo judeu, diante de tantas dores, guerras e repousos futuros:


“Sede fortes e corajosos! Não tenhais medo e nem fiqueis aterrorizados, porque é Deus quem vai contigo! Nunca te deixará, jamais te abandonará!” (Deuteronômio 31: 1-6)


Estamos vivos. Am Israel Hai.


Shabat Shalom!


Ver Prédica de 2 de fevereiro de 2018

Ver Prédica de 9 de março de 2018

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