Prédica de Edgard Leite no Grande Templo Israelita, 22/06/2019




Prezados amigos:


Algumas perguntas são frequentes, nos leitores preocupados com a Bíblia.


Uma delas é: “o Rei Davi realmente existiu?”


No nosso mundo, onde se questiona, de forma insistente e contínua, a Torá, o Tanach, a Bíblia, tal pergunta me suscitou, ao longo da vida, muitas respostas.


Hoje, posso com tranquilidade dizer que sim, existiu.


Há um aspecto central da personalidade do Rei Davi, o qual, aliás, compartilha com outras personagens bíblicas, que é a transparência de sua realidade interior.

Davi não é apresentado como um ser ideal, ou com poderes paranormais.


Ele tem sua vida caracterizada através dos elementos que constituem a vida de qualquer um de nós.


Sua existência contém sofrimentos e alegrias. Perdeu dois filhos, mas ganhou outros ou outras coisas. Foi extremamente leal, tremendamente confiável, mas também mentiu e enganou, por paixão.


Aceitou o amor daqueles que o amavam, com muita generosidade. Tinha uma imensa capacidade de reconhecimento, mas também foi cego, quando a nuvem da vaidade passou pela sua consciência.


Venceu guerras com glória, e teve derrotas humilhantes.


Nenhum rei seria assim apresentado se não se tivesse a intenção de retratá-lo tal como ele era, como um exemplo de vida humana.

E, nisso, a sua representação real não é restrita a ele.


Também Betsabá enganou, mentiu, doou, se entregou e teve alegrias, sofrimentos e realizações.


Davi é um ser humano. E sim, certamente existiu. E Betsabá também. Davi é absolutamente real. São ambos reais.


E o Livro de Samuel ainda acrescenta um detalhe importante: Davi tinha uma clareza muito grande da existência de um poder maior, que o orientava, o socorria e promovia sua realização humana.


E também lhe era claro que sua realização adviria apenas do reconhecimento de si mesmo, tal como era.


Davi era frágil, imperfeito, instável.


Mas era se descobrindo como tal que triunfava, pois nessa fragilidade essencial ele encontrava seu Deus e criador. Sua real situação no mundo: a de mortal.


Pois era Deus que lhe fornecia o fio condutor da sua redenção, que lhe fornecia elementos para superar sua precariedade e transformá-la em fundamento da sua grandeza espiritual.


E certamente Golias também existiu. Nada há de mais real na existência do que esse obstáculo intransponível, que desaparece quando somos aquilo que somos, apenas. Porque nenhum obstáculo resiste à força de nossa fragilidade interior, de nossa realidade íntima, que é apenas nossa. Um dom de Deus.

Davi existiu e se tornou o grande modelo moral da narrativa bíblica, aquele de cuja descendência, um dia, nascerá o messias emancipador.


Davi foi humano em sua dimensão mais absoluta, frágil na mais profunda das fragilidades.


Temente a Deus no mais absurdo dos temores e renascido em si próprio por sua humanidade, fragilidade e medo.


Porque tendo em si a natural busca pela realização do bem, encontrou exatamente em sua realidade mais íntima essa força absurda que move o homem não para o poder e arrogância, mas na direção do reconhecimento do outro, em si próprio.


Na existência de Davi reconhecemos a nossa própria existência, Davi existiu e nós existimos.


E na sua submissão a Deus encontramos o modelo do caminho da nossa redenção. Absolutamente real.


Shabbat Shalom!

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