Prédica de Edgard Leite no Grande Templo, 23/11/2018


Sinagoga de Tomar

Retornei há pouco de Portugal. Lá estive participando de reuniões acadêmicas, profissionais. Portugal é um país no qual a presença judaica é latente, porque presença histórica e formadora.


Poucas são as cidades portuguesas, hoje em dia, onde não se celebra a memória dos judeus que ali residiram. Onde não se nomeie um bairro como “judiaria” e uma rua como “rua dos judeus”, e onde não se tente descobrir onde esteve localizada uma antiga sinagoga.


A mais notável dessas sinagogas está, me parece, localizada na cidade de Tomar, a poucos metros do Castelo Templário. Há nela espírito e espiritualidade ainda vivos, embora tenha sido usada como estrebaria e depósito por séculos. Não há quem não se emocione ali, ao pressentir, nela, a presença de nossos ancestrais.


Viajar a Portugal é, sempre, uma viagem a essas origens que o sangue cristão-novo entende como vetor de identidade e sentimento religioso.


Mas essa viagem foi também viagem de vivência da natureza humana, e isso acabou por sobressair-se sobre todos os temas e questões profissionais.


E, nesse sentido, pude perceber que lá, como aqui, e presumo que em muitos lugares do mundo hoje, vivemos um período de muitas ansiedades e necessidades de natureza espiritual e moral.


Nesse mundo voltado para o efêmero, para o circunstancial, onde se considera, como absoluto, o que é apenas transitório, a necessidade de viver valores profundos se impõe como uma ânsia maior.

Toda dúvida sobre a existência, nesse universo de aparências, está repleta de ansiedades sobre a essência, sobre o ser, sobre a realidade e destino da alma e da consciência.


Em Lisboa, chegando um dia ao hotel depois do horário regulamentar, fiquei procurando a senha da portaria. Então fui abordado por um mendigo, um drogado, como há tantos, lá e aqui.


Ele me pediu algo, eu lhe perguntei como se sentia e ele me disse que só e preso à situação em que estava.


Eu disse então que a solidão humana é parte de nossa condição e que somente Deus, ou o mistério, no fundo, a rompe. Ele concordou comigo e me perguntou onde poderia encontrar Deus.


Eu disse que Deus está sempre conosco e cuida de nossos caminhos, mas era bom estar junto a ele nos lugares onde os seres humanos se encontram, exatamente, para louvá-lo. Aí ele me perguntou em que local? Essa foi uma pergunta difícil.


Acabei por dizer que em qualquer lugar onde se honra Deus, ali Ele está. Por isso Ele está conosco também quando estamos sozinhos e nos voltamos em sua direção.


Deus pode, de fato, nos ajudar. Não apenas na luta contra os vícios, erros e dores, mas quando nos inspira na redescoberta dos valores que são necessários para nos afastarmos da corrupção e da miséria.


Pois a substância das Suas palavras são valores eternos, que apontam ao ser humano a consistência moral e ética, a partir da qual tudo flui em aceitação e harmonia.


As ansiedades de nosso tempo não são, essencialmente, ansiedades por direitos, pois estes são tantos, mas tão efêmeros, que não nos trazem uma sensação contínua de realização, mas apenas nos conduzem a um interminável e doloroso devir de incompletudes.


Nossa ansiedade é por Deus, pela percepção das fontes de nossa alma, pelas quais encontramos algo que nunca morre, que é totalmente completo.

Essa demanda é, hoje, crescente em todo Ocidente. E para nós, judeus, descendentes de Abrão, Isaac e Jacó, motivo de misterioso significado.


Porque foi por meio de nossos ancestrais que a palavra redentora de Deus entrou no mundo dos homens. Guardiões da Torá somos também os guardiões perpétuos da mensagem libertadora de HaShem, que sinaliza os valores sagrados da vida.


Uma fonte que nunca morre, como um manancial contínuo, capaz de romper a solidão do ser, que o aproxima do próximo, que permite o reconhecimento do humano e a realização da consciência no processo de elevação de nossas almas.

Não há outro projeto político cuja profundidade se iguale a essa plataforma de redenção. E por ela se fundamenta a grande mutação ou revolução que sempre é necessária: a revolução moral. Aquela que torna os homens qualitativamente melhores ao longo de sua experiência da vida. Desafio contínuo de toda vida que teme a Deus.


Shabat Shalom.

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