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A solução da dor da história (III): viagens estelares



Edgard Leite Ferreira Neto


Eugenio Garin (1909-2004) defendeu que, no limiar do mundo moderno, não havia uma separação nítida entre astrônomos e astrólogos. E, realmente, os dois se irmanavam, como vimos, na preocupação com a correta medição dos movimentos dos astros e na preocupação em descobrir o que isto significava. Alias, é bom realçar que foram os astrólogos que forneceram as bases matemáticas que serviram aos astrônomos para que estes, depois, realizassem uma crescente e vigorosa negação do invisível.


Se percebe de forma crescente, no entanto, entre astrólogos e astrônomos, a partir do século XVI, uma sutil diferenciação nas abordagens do futuro e da história. Na astrologia o ser humano se submete ao universo e busca identificar processos simultaneamente naturais e espirituais, que, na perscrutação do futuro, permitam estabelecer algum tipo de tranquilidade diante da angústia do tempo. Considerando que, no mundo moderno, os caminhos e os horizontes se ampliaram, maiores foram os trabalhos dos astrólogos.


Na astronomia, o Homem pretende de dominar as circunstâncias exclusivamente a partir dos números, apresentando um modelo que é essencialmente realidade objetiva. A utilidade disso era duvidosa, inicialmente. A questão colocada era simples: a neutralização espiritual da matemática poderia abrir outros caminhos na vivência das ansiedades? Muitos, vivendo semelhante processo em outras áreas, se perguntavam se, a partir dessa objetividade, não seria possível capacitar o ser humano como senhor dos acontecimentos e, assim, modelar o devir. Essa dúvida demorará algum tempo a ser sanada.


A astronomia deixará clara suas possibilidades de controle do mundo e das expectativas humanas na medida em que, em conjunto com a física, química e outras ciências, propiciar o entendimento matemático das leis que governam o universo. E aplicá-los a diversos movimentos corriqueiros do mundo. Isso é de grande beleza e permite antecipações inumeráveis.


Esse processo tem uma de suas culminâncias ao longo do desenvolvimento da engenharia aeroespacial. Principalmente durante a chamada "corrida espacial", nos anos 60 do século passado. Ali foi dito que poderíamos colocar o movimento dos astros a nosso serviço, não no sentido de desvendar o nosso amanhã, mas sim no de, supostamente, construir este amanhã a partir de um conhecimento objetivo, dominando o desenvolvimento da história.


Conhecer com perfeição a órbita da lua e ir até ela e, depois, ao longo das décadas subsequentes, organizar missões bem sucedidas aos planetas e ao espaço exterior, foram ações que comprovaram que podíamos, conhecendo as leis da física e o movimento dos corpos celestes, exteriorizar, com precisão, nossos planos de futuro. A questão, no entanto, continuava: pode, tal realização, nos dar conforto?


Todo desenvolvimento da conhecimento, a partir de Copérnico, continuou, no que diz respeito à história, centrado na antecipação do futuro e o alcance de um conforto existencial decorrente. Os imensos gastos com a corrida espacial tornaram realidade uma rede imensa de comunicação por satélites bem como uma infinitude de mercadorias de alta tecnologia, que servem aos seres humanos no processo de controle do seu devir.


As viagens espaciais, em si, no entanto, foram, em seus movimentos iniciais ou essenciais, exercícios de arrogância. Pois não há nada de muito claro a ser aproveitado na lua ou em marte. Mas os produtos desse processo tornaram-se úteis para o cotidiano humano de diversas formas. Ampliando o controle ou o domínio das circunstâncias presentes e futuras.


Mas a questão do objetivo disso tudo, reiteramos, é importante. Que tipo de tranquilidade nos transmite o domínio das rotas no espaço? Tal controle nos dissipa a angústia? A matemática sem espírito permite nosso orgulho, mas propicia nossa paz?


As viagens estelares, e todos os seus fragmentos tecnológicos, nos permitem acreditar que tudo que possamos construir a partir da objetividade é previsível. E assegura um controle maior dos caminhos. Mas seu itinerário, cercado de computadores e inteligências artificiais, nos conduz exclusivamente para o mundo. O seu alvo são planetas desertos, espaços escuros e distâncias infinitas, diante das quais nos dissolvemos em temporalidades desconhecidas e difíceis de entender. Nos movimenta na direção de estrelas, que hoje assim entendemos, há muito desapareceram. Diante de nós, tal movimento, desprovido da crença no invisível, abre apenas o nada natural da fragmentação do mundo.


(Continua)

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