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A ciência entre o mandamento e a imprudência


Edgard Leite Ferreira Neto


Durante a Segunda Guerra Mundial, entre janeiro e maio de 1944, houve um intenso combate pelo controle da colina rochosa de Montecassino, na Itália. O local, de importância histórica, sediava, no seu cume, um mosteiro beneditino desde o remoto ano de 529 e estava ocupado pelo exercito alemão. No dia 15 de fevereiro de 1944 a aviação americana lançou sobre Montecassino algo em torno de 1400 toneladas de bombas, que arrasaram a abadia.


Entre os pilotos que tomaram parte desse ataque, cuja importância militar sempre foi colocada em dúvida, estava, na qualidade de atirador de cauda, Walter Michael Miller Jr (1923-1996).


Muito abalado pela experiência da guerra e, principalmente, pela sua participação na destruição de Montecassino, Miller teve uma crise espiritual e se converteu ao catolicismo após o conflito. Tornou-se, então, um escritor de ficção-científica reservado, com uma produção esparsa mas significativa. Em 1960 publicou seu único romance, intitulado Um cântico para Leibowitz, que foi imediatamente premiado, em 1961, com o celebrado Prêmio Hugo. Mesmo que as críticas tivessem sido, no geral, ambíguas.


Um cântico para Leibowitz conta a história de um mundo devastado por uma guerra nuclear, tema comum da literatura de antecipação na época da guerra fria. Mas Miller introduziu no assunto reflexões interessantes sobre a relação do ser humano com o conhecimento.


Após essa guerra nuclear, o autor conta que a sociedade, em escala global, foi envolvida num movimento político chamado de simplificação, executado pelos simplificadores. Estes promoveram e estimularam um ataque geral às instituições científicas. Os cientistas foram mortos, as universidades destruídas, as bibliotecas queimadas por multidões enfurecidas. Esse movimento derivou do sentimento de que a ciência não fora benéfica, em sua totalidade, ao ser. Ao contrário, fora responsável pela destruição da civilização. A atitude dos simplificadores estabelece, no romance, o pano de fundo de todo desenvolvimento do conhecimento num mundo totalmente devastado.


A ciência, para Miller é, acima de tudo, um destino humano. Mesmo com as universidades destruídas, as pessoas continuam buscando o conhecimento e a ciência de forma compulsiva. O homem está condenado à ciência, isto é, à busca do conhecimento, provavelmente por ter em si essa sabedoria e essa capacidade de estabelecer conexões entre as coisas, espelhando o divino. O tema é bíblico, como anteriormente já anotamos:


"E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra” (Gn 1: 26-28).


A sujeição e a dominação derivam, evidentemente, do conhecimento do objeto a ser sujeito ou dominado. O ser humano exerce essa potência em seu benefício. E Deus ainda diz mais:


"Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todo o animal do campo, e toda a ave dos céus, os trouxe a Adão, para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome. E Adão pôs os nomes a todo o gado, e às aves dos céus, e a todo o animal do campo”(Gn 2: 19-20)


O nominar implica em reconhecer, diferenciar, discernir. É ato complementar, pela sua natureza, à obra de Deus. É desse saber que emerge a sujeição e a dominação do mundo. O movimento de conhecer, que é capaz de gerar controle sobre os acontecimentos é uma contingência do ser. A questão, assim argumentam os religiosos que vão, aos poucos, em seu romance, vendo a ciência renascer, é que, embora a ciência seja destino do pensamento, é evidente que deve ter como objetivo o bem comum e o respeito do ser a algo maior, a princípios e valores que estão além do mundo.


Como, aliás, escreveu Tomas Kempis:


"não é condenável a ciência ou simples conhecimento de quaisquer coisas que, consideradas em si mesmas, são boas e ordenadas por Deus; mas é sempre preferível uma consciência reta e uma vida virtuosa. Muitos, porém, procuram antes a ciência que o bem viver e, por isso mesmo, frequentemente erram e pequeno é o fruto que colhem do estudo".


A inclinação humana de usar esse conhecimento em benefício próprio e não em benefício de todos, é que levou à extinção da vida na terra, no dilúvio, e foi a visão do bem comum que conduziu Noé, por ordem de Deus, a salvar, numa arca mística, construída por uma engenharia sagrada, todas as formas de vida da terra.


Da mesma maneira, no romance de Walter M. Miller Jr., foi pelas vaidades humanas, acima de tudo, que a guerra nuclear arrasou tudo que existia. E fugir da arrogância na ciência é a grande preocupação da Igreja, nesses séculos futuros imaginários.


Portanto, qual a razão da ação dos simplificadores, no livro? Seria a de achar ser possível não exercitar o mandamento divino de conhecer, sujeitar e dominar as coisas do mundo? Isto é, a possibilidade de não haver ciência, embora o próprio ato dos simplificadores fosse um ato de denominação, domínio e de sujeição? Ou o problema que viam os simplificadores não era o do mandamento, mas sim o do exercício desse mandamento sem ética ou moral e por isso era preciso ter um recomeço?


Os simplificadores criticavam a irresponsabilidade e a imprudência de uma ciência que não observava valores. Esta conseguiu a sujeição e o domínio do átomo. Mas não, inicialmente, para o bem comum, mas sim para o bem (bélico) de alguns. O problema da anestesia, como vimos, não está na revolução que causou nas cirurgias, mas na forma como serve para dominar a consciência humana e afasta-la do espírito. O movimento dos simplificadores era, acima de tudo, um movimento moralista.


Em Um cântico para Leibowitz, portanto, Walter M. Miller Jr. sustenta que o conhecimento, sem moral, está condenado não apenas a destruir o humano mas também a destruir a si mesmo enquanto conhecimento. Ele se torna hostil e inútil, diante da consciência humana e da vontade de Deus.


Mas é possível ter uma ciência que não estimule a arrogância que advém do conhecimento? Para Miller, não. No seu livro, a ciência é reconstruída e novamente os homens entram em guerra, ou a usam para seus interesses privados e de poder.


Walter M. Miller, portanto, acaba, ao final, e depois de sua experiência em Montecassino, colocando-se ao lado dos simplificadores: a ciência só faz sentido se ela serve a Deus e ao bem estar dos homens. E cabe a estes, de forma permanente e contínua, ao longo da história, corrigir seus rumos. Até que o bem, finalmente, se realize. Provavelmente em uma dimensão externa à história.


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