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O fim de toda insensatez


Edgard Leite Ferreira Neto


A insensatez é movida à vaidade. O movimento que leva alguém a semear vento, isto é, repartir esperanças vazias no mundo ou o de fornecer sementes que são incapazes de dar o fruto prometido é fundado na vontade de ser idolatrado ou seguido como aquele que solucionaria, neste universo dos vivos, aquilo que aqui jamais será solucionado. Isto é, dar ao Homem a abundância ou a eternidade num universo de transformações, mudanças e esquecimentos.


A mensagem que emerge entre os homens como de domínio de um mundo de mudanças está condenada a não dar fruto algum. Mas, como afirmou o profeta Oséas, o que assim semeia vento colhe sempre tempestades (Os 8:7). Por que?


Porque o mundo reage àqueles que contra ele se voltam. A vaidade humana é um sonho de realização impossível de adoração ao vaidoso, que é um ser imperfeito. É imperfeita toda ação que da vaidade emerge e imperfeito todo movimento que dela se estende para fazer o mundo espelhar esse delírio de perfeição, portanto.


A ação imperfeita tenta dar perfeição à algo incompleto e para isso mutila o mundo e deforma seu movimento. Mas o mundo tem movimento próprio. Transitório. A sua dinâmica reage ao domínio e à tentativa de controle. E quanto mais a vaidade se afirma e a imperfeição movimenta céus e terras, maior é a reação das pessoas, das coisas, dos processos, do universo, para reafirmar sua realidade: transitória.


Aquele sutil movimento, de espalhar o nada, o vento, é recusado pelo mundo mas, muitas vezes, maior é quanto maior se torna a contradição, porque o ator se recusa a reconhecer os sinais da realidade. E vai dobrando apostas e metas de forma crescente. "Eu posso, eu consigo", afirma para si próprio. A reação se avoluma a tal ponto que se torna tempestade de violência crescente. Até que a ganância de domínio se esgota, numa tragédia que afirma sempre o transitório.


Assim terminam todas as tiranias, ditaduras, reinados imortais. Mas também todas as vaidades, ambições e ganâncias desmedidas de nós todos, comuns mortais.


Há um soneto de Percy Shelley (1792-1822) sobre esse assunto. Trata da descoberta, pelo arqueólogo Giovanii Belzoni (1778-1823), de um imenso busto de Ramses II, ou Ozymandias, nas areias do Egito, busto esse, hoje, depositado no Museu Britânico:


Encontrei um viajante vindo de uma antiga terra Que me disse: — Duas imensas e destroncadas pernas de pedra Erguem-se no deserto. Perto delas, sobre a areia Meio enterrado, jaz um rosto despedaçado, cuja carranca

Com lábio enrugado e sorriso de frio comando Dizem que seu escultor soube ler bem suas paixões Que ainda sobrevivem, estampadas nessas coisas inertes, A mão que os escarneceu e o coração que os alimentou.

E no pedestal aparecem estas palavras: "Meu nome é Ozymandias, rei dos reis: Contemplai as minhas obras, ó poderosos e desesperai-vos!"

Nada mais resta: em redor a decadência Daquele destroço colossal, sem limite e vazio As areias solitárias e planas se espalham para longe.


O verdadeiro poder vem da aceitação da realidade das coisas e de seu movimento natural e da busca, nessa realidade, de algo que está além dela e que a transcende. Esta, metafísica, é verdadeira semente, a que floresce da terra, com o reconhecimento da ciência do mundo. Que trás, em si, a presença de algo maior que o mundo: a eternidade que predomina sobre o transitório, sobre nós mesmos, sobre tudo.

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