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O misterioso atrevimento


Edgard Leite Ferreira Neto


Uma passagem muito importante do Velho Testamento, no que diz respeito à natureza da vida, é aquela na qual Abraão percebe que os três anjos que recebeu em sua casa se dirigiam à cidade de Sodoma, para aniquilá-la.


Provavelmente preocupado com os seres humanos que lá residiam, entre os quais estava seu sobrinho Ló, Abraão tentou argumentar, junto aos anjos, em defesa da cidade. Perguntou se seria possível, na possibilidade de haver cinquenta justos em Sodoma, que a localidade pudesse ser poupada.


Naquele instante, Abraão se deu conta do absurdo da situação. A vida possui uma fragilidade impressionante. A forma se transforma com o tempo. Com os anos, o corpo vai se tornando pesado para a alma. E quando, no mais assustador dos fenômenos da existência, o corpo se torna inanimado, ele começa imediatamente a se decompor. E ao acompanhá-lo ao longo do tempo se observa que dele só vão restando alguns ossos, e, depois, mesmos estes se transformam em areia.


A inexorabilidade da destruição de Sodoma e Gomorra, por conta dos inúmeros pecados de seus habitantes, não era devida à vontade dos homens. Mas, sim, a um movimento muito maior, que estava acima dos homens, do tempo, e do processo de desagregação das formas. Os três anjos, cujos movimentos, olhares e gestos, expressavam o mistério que está além do visível e do mensurável, temporal e espacialmente, eram Deus, em movimento nesse mundo de lágrimas. Não havia nada de maior, pois por eles se adivinhavam os movimentos, os olhares e os gestos da eternidade.


Como seria possível, pensa Abraão, num átimo de segundo, a sua voz, a voz de um nada, um mortal cujo corpo tinha o destino de tornar-se areia, poder ser ouvida por aquele que nunca dorme? (Sl 121:3). Então ele se colocou, consciente, diante de um maiores mistérios da existência: "Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor, ainda que sou pó e cinza”(Gn 18:27). Como é possível, de fato, algo que está neste mundo do tempo poder ser ouvido pela eternidade, isto é, por além da temporalidade?


Esse ponto da questão perturbou Abraão. Mas é precisamente ao colocá-lo para si que se deu conta de que havia aqui alguma coisa muito mais estranha que qualquer outra com a qual lidava no mundo. Ele obedecia a Deus, porque o tempo se submete à eternidade. E obedecia com absoluta confiança, pois como não ter fé naquele que nos faz viver? Mas agora ele percebia que poderia ter, dentro desse pó e cinza que era a vida no mundo, dessa obediência que tem dimensões ontológicas, e que, devidamente vivida, coloca o ser naquilo que ele é, a possibilidade do atrevimento de falar. Falar com Deus.


Não é fácil responder o porque isso é possível. Mas quando o Santíssimo Sacramento caminha em silêncio entre as almas, e nos ajoelhamos, não no genuflexório, mas no chão frio, e nos descobrimos absolutamente nada, diante de tudo, esse estranho fenômeno se realiza: a presença de Deus é sentida, próxima, íntima, amiga. Um contato que, nesse nada, nos permite descobrir que somos, na verdade, quase nada, pois nos possibilita esse inimaginável e misterioso atrevimento de falar e ser ouvido.

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