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Em defesa da simplicidade



Edgard Leite Ferreira Neto


Vivemos em uma sociedade onde o aparente predomina, principalmente pelo bizarro e pelo espalhafatoso. Não entraremos aqui no antigo, e já relativamente esquecido, tema da “sociedade de espetáculo”, como a definiu Guy Debord. Porque a questão não é, nem nunca foi, ligada à realidade de um sistema dito “capitalista”, que promoveria esse culto do "espetáculo".


De fato, a existência desse “sistema capitalista" não é real, pois não parece haver uma sucessão de sistemas na história, mas, sim, um fluxo contínuo de atos morais, que se realizam em uma realidade cujas formas se desvanecem e se reagrupam continuamente e que parecem ser diferentes, mas expressam mesmas essências. O ato de comunicar-se pode parecer diferente quando o fazemos por WhatsApp, mas é o mesmo ato relacional de quando escrevíamos em tábuas de argila.


Assim, a necessidade de se tornar visível, neste mundo, à admiração dos outros, sob qualquer pretexto, principalmente pelo exercício do exagerado, já existia, portanto, antes da generalização da moeda como meio universal de troca. E, cabe-nos anotar brevemente, a dinâmica de funcionamento do comércio nada mais é de que uma forma desenvolvida no movimento de trocar coisas por outras coisas, característica da existência humana e de seu processo de realizar-se como animal político.


Sempre estivemos, portanto, imersos numa feira de vaidades infinita e contínua mas que adquiriu, no mundo atual, uma forma elaborada, que expele a simplicidade. Os pensadores, por exemplo, no nosso tempo, se dedicam a construir sistemas intelectuais complexos e de difícil entendimento, que, em princípio, dão conta de tudo, mas dizem respeito, principalmente, à sua própria vaidade e, portanto, pouco ou nada tem de real. Há uma sucessão de sistemas assim: o de Hegel talvez seja o mais mirabolante, mas muitos concorrem com ele em extravagância.


Antes da rede global, essa feira das vaidades parecia restrita, e era diligentemente administrada por poucos, mas agora ela parece amplificada com elementos que, para quem as observa, parecem não ter limites. Pois é livre a sua realização e a amplitude de sua reproducão está muito além de nossas circunstâncias de controle individual. Sempre foi assim? Certamente. Mas, a população era muito menor. E o número daqueles que nos cercavam podia ser opressivo, mas estava em uma outra dimensão de alcance.


A ânsia de ser conhecido se exteriorizava nas antigas mídias de forma muito competitiva e difícil. Competição e dificuldade também colocada no amplo campo da rede. Hoje, no entanto, há números. E muitos se definem pelos números de seguidores. Essa redução a números acompanha, de uma forma geral, o processo de domínio da matemática sobre as consciências, de construção de uma hierarquia de quantidades e, principalmente, a depreciação da qualidade. Mais um reforço ao exuberante e à sua consolidação.


Essa pouca importância dada à qualidade, ou à essência, e esse predomínio das quantidades e das aparências estende-se a tudo. Pelos números, o desprezo pelo essencial alcançou dimensões impressionantes, o que significa que o movimento de culto das formas adquiriu um poder que antes não tinha sobre as consciências. Há de reconhecer tal singularidade.


Mas a crítica das aparências, a defesa da essência e da qualidade, e da superioridade do sublime sobre o grosseiro, também crescem pelas redes e pelos números na mesma medida. E embora todo esse universo de exuberâncias e exageros pareça dominante e incontrolável, junto com ele emergem, também, movimentos que buscam a realização das virtudes e da simplicidade.


E quanto mais as narrativas se tornam rebuscadas, maior a necessidade de controlar o absurdo culto das aparências e dos exageros, pelo reforçamento contínuo da necessária observação das essencialidades. Porque na nossa alma sempre o simples fala mais alto do que qualquer pretensão.


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