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A afirmação da essência e do mistério



Edgard Leite Ferreira Neto


Quando negamos que as pessoas possuem essências as entendemos apenas pelas suas aparências. E as aparências são mutáveis, pois o mundo é transformação contínua. O culto das aparências, no qual vivemos, é o menosprezo do ser, da alma.


Considerar alguém pelas suas ideias, por exemplo, e não pelo que ela é, como ocorre hoje em dia, é reduzir o ser humano à uma mera existência, a uma espuma num rio. As ideias mudam, se dissolvem e se reaglutinam. E se transformam em outras. Mas o ser que as pensa não se resume a elas, é infinitamente maior.


A crítica de alguém por esse ou aquele pensamento, que desafina a aparência que as concepções devem ter, é negação da profundidade humana. Estabelecer como normativa uma forma de pensar que se legitima apenas pela sua própria existência é erigir a espuma do rio Ganges como razão suficiente para a conduta. Por que se faz assim?


Porque se entende que sem essência podemos ser o que queremos e podemos justificar qualquer fantasia que se estabeleça no âmbito da consciência. Porque sem esse mistério da essência tudo parece estar ao nosso controle, e qualquer movimento do pensamento adquire a aparência de verdade.


Na prática isso funciona como uma espécie de neblina que impede a visão da profundidade humana e seu mistério. Tal movimento está enraizado no orgulho, na vaidade. Tal nebulosidade, eventualmente, se transforma em movimento político que nega a existência do enigma e faz repousar sobre os atos de consciência a aparência de atos criadores de infinita potência.


E, é claro, todo aquele que disser que há algo mais que as narrativas, algo diante do qual todas as narrativas são efêmeras, será silenciado, porque a arrogância que advém da negação da essência é como uma droga que anestesia a fragilidade do ser diante do mundo.


Mas isso tem tantas consequências na vida que não se pode sustentar por muito tempo. Pois assim vivendo o amor se torna impossível. Tudo se resume a movimentos efêmeros de prazer que são, em si, permanentemente reciclados.


A amizade se desvanece, pois ela se torna apenas utilitária, e a associação entre as pessoas unicamente um contato que pretende a reafirmação contínua da narrativa e de suas falácias. Não há verdadeiro encontro, porque só a realização do conhecido, do visível, é importante, e a experiência do diferente, ou do mistério, se torna desagradável desafio à alegada potência infinita da narrativa e sua ausência de enigma.


Viver na negação do mistério é, no entanto, pura angústia. Porque o mistério existe e é a fonte de tudo. E ir ao seu encontro a razão da existência.


A rebelião do ser contra tais proposições narrativas arrogantes é, portanto, inevitável e por isso o controle violento acaba se impondo. Não só contra os dissidentes, mas contra todos aqueles que vivem a dor profunda de ser apenas espuma. Mas que controle pode ser realizado diante da essência, ou melhor, diante do mistério? Nenhum. Pode-se silenciar e matar multidões, mas o enigma continuará existindo.


Não se pode dizer, no entanto, que a negação da essência não tenha sua razão de ser e não esteja, de alguma forma, inserida na maneira como o Homem entende a vida. Adorar o bezerro de ouro é muito mais agradável do que estar frente a frente com Aquele que É. O primeiro é feito pelas mãos humanas, todo seu procedimento está sob controle da consciência. É igual. O segundo é enigma, o que dele vem desafia continuamente a vaidade e a arrogância. É diferente.


É, portanto, até natural que o pensamento escorregue para essa tentativa de negar o essencial, de focar na existência apenas e tentar fazer com ela, tudo. Mas essa naturalidade é puro desespero. Não há, nela, qualquer esperança, qualquer confiança ou altruísmo. É como resistir a uma correnteza que nos leva numa determinada direção - que recusamos a reconhecer como direção.


Uma correnteza que nos conduz na direção de nosso interior. Na submissão das aparências à verdade das essências.


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