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A razão da dissidência: Andrei Sakharov


Edgard Leite Ferreira Neto


Andrei Sakharov (1921-1989) foi um intrigante intelectual russo. Físico, um dos pais da bomba de hidrogênio soviética, tornou-se, no entanto, um crítico do regime. Primeiro envolvido com questões de política acadêmica, dentro das quais, evidentemente, não exercia protagonismo, logo passou a expressar opiniões sobre as relações militares entre EUA e URSS e fazer observações mais amplas sobre política internacional. Mas, principalmente, arriscou singelas sugestões sobre o funcionamento do sistema socialista. Embora, em princípio, não visse tais opiniões como particularmente hostis ao regime, foram estas, pelo sistema. imediatamente entendidas como tais, basicamente por não concordarem com aquelas que estavam estabelecidas e eram oficiais.


Isso levou-o ao sofrimento da dissidência, ao ostracismo, à prisão, à destruição de sua reputação. Pois expressar opiniões próprias significa, basicamente, erguer o juízo da própria consciência como elemento essencial para o discernimento, e a implícita recusa em transferir tal juízo para outros. O outros, nesse caso, era o Estado que detinha em si a exclusiva legitimidade de decidir sobre os destinos da sociedade e dos indivíduos. A partir do momento em que passou a discernir, de forma mais ou menos livre, trilhou, junto com muitos outros intelectuais soviéticos, o caminho do pensar diferente, do discordar. E, para o regime, tal caminho exigia a adoção de ações de desmantelamento dessas consciências autônomas e o seu extermínio.


Tal jornada era difícil e dolorosa, pois o Partido Comunista tratava seus críticos, mesmo os que se colocavam com prudência, como Sakharov, com sistemática desqualificação, normalmente exagerada e violenta. Lhes era negada qualquer legitimidade às possíveis narrativas que pudessem construir. Pensar diferente sobre pequenos detalhes era o suficiente para ameaçar todo sistema, que se entendia como absoluto. Na época de Sakharov, o silêncio em uma aldeia remota, a prisão ou o hospício eram entendidos como soluções eficazes. O assassinato intelectual ou físico uma solução definitiva.


Quando o lemos hoje é interessante perceber os meandros do seu pensamento, que são próprios daquilo que é o pensar dissidente. Sakharov trabalhava, como o fazia também Alexander Solzhenitsyn (1918-2008), e outros, aceitando em parte os paradigmas fundadores do pensamento dominante, mas introduzido neles observações pertinentes que soavam, no entanto, dissonantes. A dissonância emergia da busca da pertinência no discurso oficial. Era isso, assim, o princípio fundador da dissidência.


Diferentes, entre si, Sakharov (mais politicamente liberal) e Solzhenitsyn (mais moralista e religioso), dificilmente encaravam, nos primórdios, frontalmente, a vasta narrativa do regime marxista russo. Mas, de forma insistente, apontavam incongruências. Para entender esse mecanismo é necessário voltar ao momento onde Sakharov tornou-se abertamente dissidente: 1968.


Foi naquele ano, em pleno governo de Leonid Brejnev (autoritário e corrupto), que Sakharov publicou, inicialmente na forma de samizdat (isto é, texto manuscrito ou datilografado que passava de mão em mão e era livremente copiado), seu curto volume de ensaios Reflexões sobre o Progresso, Coexistência e Liberdade Intelectual, logo publicado em inglês (Progress, Coexistence, and Intellectual Freedom. New York, The New York Times, 1968).


É um texto inquietante. Para quem busca uma simples e militante crítica a Moscou chama a atenção a maneira quase oficial como entende a guerra do Vietnã. É particularmente interessante, por exemplo, o seu vigoroso ataque ao governo nacionalista do Vietnam do Sul (em acordo com a posição do governo soviético de então). O governo de Saigon, apoiado pelos EUA, segundo Sakharov, em nome da luta contra o comunismo, e evocando a “vontade nacional”, “violou todas as normas legais e morais e promoveu flagrantes crimes contra a humanidade” (p.38).


Suas observações sobre o Vietnã, no entanto, eram declarações de princípios. Sakharov, logo em seguida, e a partir dos mesmos pressupostos, passa a narrar, em poucos e corajosos parágrafos, décadas de atrocidades nacionais e políticas da própria União Soviética, sob Stálin. Não tem dúvidas em compará-las ao fascismo: “o fascismo durou doze anos na Alemanha. O estalinismo o dobro na União soviética. Há entre eles muitos aspectos comuns mas algumas diferenças. O estalinismo exibia um tipo mais sutil de hipocrisia, não baseado num programa abertamente canibal como o de Hitler, mas numa ideologia progressista, científica e popular socialista” (p.52). Essa hipocrisia, se depreende, repousava no fato dessa ideologia não ser, de fato, progressista, científica nem popular e socialista.


Aponta assim, Sakharov a incongruência narrativa. Pois, pergunta o leitor, que lia o samizdat de forma secreta, qual a diferença entre o governo do Vietnã do Sul e o governo soviético de Stálin o qual Sakharov equipara, aliás, com o regime nazista. Não vivemos mais sob Stálin (este morreu em 1954), mas tem o nosso governo, atualmente, condições morais de criticar o governo de Saigon, sendo a este tão parecido?


Sua discussão sobre a Guerra dos Seis Dias também é interessante. Sakharov comenta, com estranheza, o fato da União Soviética apoiar os estados árabes (“que não tem nenhum perfil socialista”) contra Israel (p.39). Ora, supõe o leitor, Israel não apenas foi criado a partir de uma proposta soviética, mas apresentava, desde suas origens, uma sociedade de forte perfil socialista. Por que deveria a URSS apoiar regimes que se voltavam contra os seus princípios ideológicos? Isto é, os árabes. Não seria seu aliado natural o Estado de Israel?


Colocar em relevo a dissonância e apontar a falta de pertinência narrativa, era uma das principais preocupações de Sakharov. Num livro de certa forma obediente ele mostrava, no entanto, aqui e ali, a incongruência da narrativa do Estado e o caráter insustentável de sua razão.


Pode um regime de terror (a URSS) criticar moralmente um outro regime de terror (o Vietnã do Sul)? Não deveria um regime socialista ajudar um outro regime socialista? Havia uma profunda dissonância entre aquilo que o sistema era e o que aparecia ser. É a URSS amante da paz e da justiça? É a URSS um país socialista? Existe o socialismo? Existe a União Soviética? Observemos que uma crítica que Sakharov faz ao Stalismo é, exatamente, o seu “isolamento da vida real” (p.53). Sob que tipo de mentira viviam os soviéticos?


Em seu livro, Sakharov afirma que a “liberdade intelectual é essencial à sociedade humana” e define os inimigos da liberdade: “o ópio da cultura de massas, as ideologias covardes, egotistas e estreitas e o ossificado dogmatismo da oligarquia burocrática e sua arma favorita, a censura ideológica” (p.29) E termina seu texto pedindo plena liberdade, respeito aos direitos humanos e anistia para todos os presos políticos.


Podemos ponderar que Sakharov era particularmente sensível à dissonância existente entre a essência e a aparência. Seu papel foi, em 1968, o de levantar a existência das mentiras: formas exteriores que não correspondiam ao essencial. E mais: colocar em dúvida a própria natureza do fenômeno. Que tipo de realidade era aquela dentro da qual vivia, na qual era tão difícil encontrar, pelo discernimento, a pertinência entre conteúdo e forma?


É muito difícil ser dissidente. Mas mais difícil é conviver com a incompatibilidade entre o ser e a aparência ( enquanto política de Estado) e com um conteúdo que se entende como desprovido de essência. E, portanto, desprovido de verdade. Para Sakharov, mais difícil que todo o sofrimento da repressão do regime era viver num mundo de mentiras e ilusões.




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