Maria de Lourdes Corrêa Lima e a santidade no ofício
- Edgard Leite

- há 22 horas
- 6 min de leitura

No Levítico, quando Deus trata das regras alimentares, estabelecendo o limite e a oposição entre o que é puro e impuro, faz ao povo de Israel uma importante observação: "vós vos santificareis e sereis santos, porque eu sou santo”(Lv 11,44). Esta afirmação estabelece que o horizonte existencial do Homem deve ser a santidade. E é retomada por Pedro, mil anos depois: "a exemplo da santidade daquele que vos chamou, sede também vós santos em todas as vossas ações, pois está escrito: sede santos, porque eu sou santo”(1Pe 1, 13-16).
O desafio da santidade, que emerge como mandamento divino, é um eixo central da mensagem ao Homem, na literatura bíblica. Estabelece o sentido de uma dada relação, necessária, que deve existir entre a eternidade de nossa alma e a transitoriedade contínua das formas. Sustenta a ascendência das virtudes, que do fundo de nossa consciência se apresentam como elementos suficientes, estruturantes das ações, ascendentes sobre os pecados que emergem de nossa experiência com nosso corpo mutável e o mundo transiente. Cada pessoa e cada forma de inserção no mundo tem um desafio próprio dessa santidade, que representa, afinal, o triunfo da integridade da consciência e a vitória da alma sobre a fragmentação contínua e avassaladora do mundo.
O universo acadêmico de nossos dias é muito marcado pela ideia de que apenas o visível, ou o material, deve nortear as nossas análises. Quem pode afirmar algo sobre o imaterial? Perguntaria Kant. A aridez do mundo invade de forma silenciosa tudo o que se pensa e se faz que beire a sensação do imaterial. Como ler, como entender, os textos que Deus, por seu Espírito, legou aos homens para que estes possam ser algo maior que o mundo? Muitos hão de dizer que levantando as conexões entre o que está escrito e aquelas interpretações, sempre passageiras, que os historiadores contemporâneos constroem sobre o passado. Ou, segundo outros, buscando conexões textuais que desintegram as narrativas bíblicas, revelando a existência de diferentes fragmentos, que teriam sido reunidos por obscuras intenções humanas, demasiadamente humanas. Há muitos que consideram esses textos notáveis como tentativas efêmeras de buscar algo que é inalcançável ou inexistente, mas cuja quimera repousa em fantasias de mentes inquietas.
Há uma infinita distância entre esses estudos e a Bíblia (em qualquer tradução). Esse abismo é claro quando o texto sagrado é lido diante do silêncio de uma dor humana, na alegria de uma realização qualquer, ou quando propicia a descoberta de conexões entre o mundo material e o imaterial. A realidade dessa literatura mostra bem que embora a areia do mundo entre no pensamento e se acumule em séculos de reflexão crítica, a Bíblia, na sua serenidade sagrada, que em todos os idiomas pode ser compreendida, repousa silenciosa pairando entre os mundos e revelando algo que é profundamente misterioso: o horizonte da santidade.
A primeira vez que ouvi Maria de Lourdes, na mesa de um congresso, há muitos anos, percebi que estava diante de uma presença misteriosa. Não lembro qual o assunto exposto. Mas me recordo claramente que, quando ela falava, havia em cada sentença, em cada afirmação e comentário, a presença das três virtudes teologais, como fundo sinuoso que assinalava o razoável da sua exposição. Havia Fé: a de que a sua argumentação expressasse que uma dada incerteza, à luz da razão, era, de fato, um caminho claro e iluminado. Fé nesse grande desafio intelectual de explicar aquilo que é inexplicável, traduzir o que é intraduzível, comportar, no espaço de um texto ou de uma aula, aquilo que é infinito.
Havia a Esperança de que o sentido estabelecido no texto, traduzisse, enquanto verdade, algo que terminaria necessariamente na vitória da vida sobre a imensidão do mundo. Por exemplo, ela me explicou uma vez qual o sentido que há no ato de um pastor que veste uma armadura de bronze, a retira logo em seguida, e apresenta-se diante de um gigante na sua real dimensão de pastor: nada no mundo há de maior que a força da fragilidade.
Em Maria de Lourdes há sempre amor e compaixão, não apenas na forma como constrói sua própria narrativa analítica ou crítica. Mas principalmente na imitação que esta contém daquilo que está escrito por Deus. Ela busca sempre guardar a correlação do que fala com a intenção do autor divino, quando este elaborou a escritura sagrada - que expressa sinergia com tudo que criou. E é, claro, Maria de Lourdes guarda muita compaixão com nós que a ouvimos, em sua generosidade infinita.
A cada evento, a cada reunião em que tive a benção de poder estar com ela, pude me dar conta de que tudo que falava (na calma e na irritação) continha sempre uma impressionante tensão subjacente. Esta refletia tanto uma percepção continua e crítica sobre o mundo e suas incongruências e fragilidades, quanto uma abertura ampla do coração para a eternidade. No primeiro seu olhar se tornava um pouco apertado, noutro ele parecia se dissolver em alguma outra dimensão. E muitas vezes as duas coisas se misturavam. Principalmente quando tratava de temas bíblicos.
Sua paciência com minhas fragilidades nunca teve limites. Provavelmente porque entendia que a verdade, na ciência, está muito além da nossa capacidade de alcançá-la. E eu nunca ocultei estar muito aquém da verdade. Mas sua presença na minha vida foi normalmente milagrosa.
Em todos, todos, os momentos em que a encontrei alguma coisa que eu pedira a Deus se realizava. Às vezes, em momentos nos quais a minha angústia diante do mundo e de sua hostilidade repousava apenas nas mãos de Deus, Maria de Lourdes aparecia e espantava então essa ansiedade, como a areia do mundo se acumula na consciência é dissipada pelo vento da verdade. A sua presença era sempre tranquilizadora, na certeza que me inspirava o sentimento de que a dor seria dissipada. Não apenas pelo tempo, mas pela realização de algo maior que o sofrimento. Outras vezes ela aparecia apenas para atestar uma graça, um milagre, alguma coisa excepcional: a realização de um momento antes impossível. A percepção de que isso ocorria normalmente me abriu caminho para entender com mais profundidade a presença de Deus no mundo.
Maria de Lourdes, portanto, também me orientou pelo pântano da minha consciência. De forma muito tranquila me guiou, pela mão, pelas palavras do Tanach, e pelo mundo que o Deus de Israel criou com elas. Lembro-me, uma vez, de estar muito concentrado, num retiro, e minha mente estava circulando sobre si mesma, num amplo salão de um palácio infinito, diante de escadarias que repousavam na obscuridade. Eu quase me perdera naquele movimento interno, pois era difícil passar para além daquele salão, mesmo que iluminado, como estava, por candelabros antigos. Mas, subitamente, abri os olhos, olhei para o lado e vi Maria de Lourdes caminhando em silêncio. Naquele momento sua presença iluminou minha consciência de uma forma muito particular. Principalmente porque ela estar ali era um evento imprevisível e, na verdade, impossível. Também dei-me conta que Maria de Lourdes representava, de alguma forma, a certeza extraordinária da santidade, se movendo pelo meu mundo de reflexões. Cumprimentei-a e, logo depois, quando retornei ao interior do palácio, vi as escadarias iluminadas, prontas para ser ascendidas.
Maria de Lourdes apontou, para mim, a justiça sagrada das profecias e o que elas de fato significavam. Uma vez, por ela, cheguei a essa passagem de Isaias:
"vejam, meu servo terá êxito; será muito exaltado. Muitos, porém, ficaram espantados quando o viram: seu rosto estava tão desfigurado que mal parecia humano; por seu aspecto, quase não era possível reconhecê-lo como homem. Ele causará assombro em muitas nações; reis ficarão mudos diante dele, pois verão aquilo que ninguém lhes havia falado, entenderão aquilo que nunca tinham ouvido” (Is 52, 13-15)
Que êxito poderia ter o servo de Deus em mim? Que espanto ele poderia me causar e o que traduziria esse homem irreconhecível? Poderia entender aquilo que nunca me tinha sido dito ou que nunca ouvira? Maria de Lourdes então, nesse momento, me pediu uma introdução a um dos seus livros. Tarefa muito difícil pela grande distância, mas entendi que era possível, da fragilidade, admirar a grandeza, apenas. Ter êxito, espanto, reconhecimento, entendimento e audição.
Aos poucos, o palácio me abriu o caminho para um pátio sombreado diante do rio Jordão. Neste, eu, com o pescoço curvado, apenas podia ter à vista pés chagados, quase irreconhecíveis como humanos. Agradeci a Maria de Lourdes por essa ajuda miraculosa no caminho que tracei, no meio dos livros sagrados, no ofício de pensar, na direção da santidade. A afirmação de Deus “sede santos, porque eu sou santo”, encontrou, nessa minha professora, uma realidade maior e luminosa, presente de Deus e da vida por Ele criada.



Comentários