Edgard Leite em dois relatórios do SNI: um testemunho.
- Edgard Leite

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Atualizado: há 11 horas

Entre 1979 e 1983, eu e minha avó, Alejandrina Castro Ferreira, atuamos no movimento de solidariedade aos refugiados políticos do cone sul - que vinham ao Brasil a caminho de exílios mais seguros. A minha participação em tal movimento, intensa, mas clandestina, inicialmente, não escapou, no entanto, ao Serviço Nacional de Informações (SNI), que quase imediatamente (1981) me identificou como integrante, de alguma importância, em uma rede de apoio a grupos de esquerda sul-americanos:
"Além daqueles estrangeiros sob a proteção do ACNUR [Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados], outros existem que, residentes no País, desenvolvem atividades de propaganda subversiva contra seus países de origem. Dentre eles podem ser citados (... )Edgard Leite Ferreira Neto (ELFN)(...) Embora brasileiro, desde Jun 80 o nomeado recebe farto material de propaganda procedente da SUÉCIA, sendo o responsável pela distribuição da revista 'Cuestlon', impressa naquele país, a asilados sul-americanos residentes no RIO DE JANEIRO/RJ".
Na verdade, eu assim atuava, bem como em outras atividades correlatas a esse movimento, desde 1979. A descoberta de meu nome decorreu de ter passado a utilizar uma caixa postal que eu, pessoalmente, aluguei.

Considerado como elemento subversivo, portanto, fui acompanhado pelos órgãos de informação com alguma atenção, no âmbito daquele movimento específico, por conta do papel executivo que eu parecia desempenhar. Toda essa movimentação política, mais tarde, após a consolidação da abertura política, adquiriria o nome de Comissão de Solidariedade dos povos latino-americanos (COSPLAN). Em 23 de março de 1982 a COSPLAN foi organizada, com um apoio suprapartidário, que reunia o PMDB, PDT, PT, (e também o PCB, PC do B e MR-8, segundo o SNI), a UNE e a UEE. Uniram-se, na COSPLAN várias entidades. E também políticos e personalidades. Entre outros, Bayard Boiteux, Davi Capistrano, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Eduardo Greenhald, Perseu Abramo, Raymundo Faoro e Teresa Zerbini. No dia 18 de abril de 1982, como bem anotado no informe, a COSPLAN realizou manifestação em frente ao consulado uruguaio quando então foi tornado público um manifesto em defesa dos direitos humanos naquele país e denunciadas as condições dos seus presos políticos.
A minha permanência nos bastidores daquele movimento (em atividades executivas não totalmente conhecidas pelos orgãos de informação) foi anotada pelo relatório do SNI, ao observar que (no mesmo tom do primeiro relatório)
"entre os brasileiros que cooperam na distribuição de material subversivo oriundo do exterior, figuram os seguintes"
e cita alguns nomes, entre os quais, o meu.

Este mesmo documento afirma, numa lista que denomina os movimentos políticos estrangeiros e seus representantes, minha ligação com o Partido Comunista Uruguaio:

Posso dizer, quarenta anos depois dos acontecimentos, que, capitaneado pelo ACNUR, e contando também com o apoio da Caritas, através da Arquidiocese do Rio de Janeiro, esse movimento de solidariedade, que culminou no COSPLAN, contou com a participação de muitos. Todos, ali envolvidos, se dedicaram a buscar soluções para as dificuldades dos refugiados políticos latino americanos daquela época. Bem como tornar clara a situação precária dos presos políticos nos países do cone sul. Sabiam os participantes desse esforço de solidariedade que, provavelmente, eram acompanhados pelos orgãos de informação, e podiam sofrer qualquer coisa (pois embora o regime militar estivesse em declínio, o aparato repressivo ainda estava ativo). Mas a disposição de amparar perseguidos e neles encontrar amizades, cumplicidades e sentidos se sobrepunha a qualquer temor.

Alejandrino Castro(esq.), era meu primo, e cumpriu pena política na penitenciária de Libertad, no Uruguai, entre 1972 e 1985. Alejandrina Castro Cassou Ferreira(dir.) minha avó, residente no Rio de Janeiro, atuou ativamente na solidariedade aos refugiados do cone sul que aqui estavam buscando refúgio. Acomodava-os em sua casa. Essa foto foi tirada após a libertação de Alejandrino e expressa o sucesso do apoio e da solidariedade geral, inclusive do movimento que existia no Rio de Janeiro. O irmão de minha avó, meu tio-avô, Rodolfo Castro Cassou, também esteve preso em Libertad entre 1972 e 1978 e veio ao Rio, em determinado momento, para agradecer a todos nós. Lendo esses antigos documentos me lembro muito deles. E por eles, e por todos que aqui passaram, sempre guardarei um infinito sentimento de amor, ternura e gratidão.
Documentos:
1- Ficha de detento de Rodolfo Castro Cassou onde constam dados gerais, pessoais e de inteligência, e a organização à qual pertencia: O.P.R.-33, isto é Organización Popular Revolucionaria-33 Orientales (OPR-33), que era o braço armado da Federación Anarquista Uruguaya (FAU). Também consta o nome de sua irmã, minha avó Alejandrina Castro, o nome do marido desta, Edgard Leite Ferreira (meu avô) e o fato destes residirem no Rio de Janeiro.



Fonte: Archivos del Terror de Uruguay - Archivo SID (Berrutti) - Rollo 470 - Carpetas liberados del EMR1 nro 249 al 293.pdf
2- Dados de inteligência de Alejandrino Castro Lopez onde consta a organização à qual pertencia: M.L.N. isto é, Movimiento de Liberación Nacional - Tupamaros (MLN-T).


Os dois relatórios do S.N.I. que mencionam as atividades clandestinas de Edgard Leite Ferreira Neto podem lidos aqui:
BR_DFANBSB_V8_MIC_GNC_CCC_81004875_d0001de0003.pdf (1981):
br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ccc_82005986_d0001de0001.pdf (1982):
Informações sobre os presos políticos uruguaios podem ser obtidas aqui:
Universidad de la República: Investigación Histórica sobre la dictadura y el terrorismo de estado en el Uruguay. Tomo II 2008. (1973-1985)



Que bom conhecer essa história! Mais um capítulo relevante da sua história e da história do Brasil
Muito interessante