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O que aprendi com meu avô


Meu avô, Edgard Leite Ferreira, nasceu em 1903. A sua família vivia uma vida razoavelmente confortável no Rio de Janeiro, para os padrões da época. Seu avô, João Ribeiro Leite (1848-1920), português de Trás-os-montes, era proprietário de uma rede de armazéns de Secos e Molhados. Sua mãe, Genoveva Leite Ferreira (1879-1955) se casou quando tinha 12 anos e teve muitos filhos.


Edgard Leite Ferreira (primeiro, sentado, à esquerda) e alguns de seus irmãos e irmãs (1909?)
Edgard Leite Ferreira (primeiro, sentado, à esquerda) e alguns de seus irmãos e irmãs (1909?)

Edgard Leite Ferreira teve uma boa formação. Em 1914, o jornal O Pais noticiou que foi aprovado na terceira série elementar e em 30/3/1916 o Jornal do Comércio anotou sua admissão no Externato do Colégio Pedro II “foi aprovado com muito boas notas o inteligente menino Edgard Leite Ferreira”.


Retrato escolar. Edgard Leite Ferreira está assinalado com um x (1914?)
Retrato escolar. Edgard Leite Ferreira está assinalado com um x (1914?)
Jornal do Comércio, 30 de março de 1916.
Jornal do Comércio, 30 de março de 1916.

Era também uma pessoa que buscava o certo. Em 1926 os jornais noticiaram que ele denunciou à polícia um pai que mantinha seu filho acorrentado, e sob abusos, numa casa vizinha à sua. A polícia foi ao local e confirmou a acusação. O pai foi preso e o desenrolar da história, a posteriori, é desconhecido. Mas a sua atitude, que muitos na vizinhança consideraram temerária, foi registrada como virtuosa.


Jornal do Brasil, 6 de janeiro de 1926
Jornal do Brasil, 6 de janeiro de 1926

O Imparcial, 6 de janeiro de 1926
O Imparcial, 6 de janeiro de 1926

É curioso, no entanto, que ele reapareça nos jornais em 1932, no Correio da Manhã e no A noite, onde se dá conta de “um brasileiro expulso do território uruguaio”: “por ordem do governo do Uruguai, foi embarcado no 'Monte Oliva’, que chegou hoje no nosso porto, o brasileiro Edgard Leite Ferreira, que andava externando suas ideias comunistas naquele pais”. Já comunista, portanto, em plena crise política brasileira, pós revolução de 1930, meu avô entrava assim no ativismo político. Era o momento da ascensão do comunismo em âmbito global e do fortalecimento da Rússia soviética como horizonte da utopia..



Foi feito prisioneiro, na ocasião. E logo novamente deportado para o Uruguai. Surpreendentemente, no entanto, em 1934, foi nomeado, após concurso público, para o cargo de inspetor de produtos de origem animal do Ministério da Agricultura.



Qual seu envolvimento com o movimento comunista de 1935? É obscuro. Teria tido alguma participação, mesmo que indireta, na Conferencia da Mantiqueira, na qual o PCB foi reorganizado, em 1943? Não dá ainda para saber. Embora ele tenha me dito que conhecia todos os que desta reunião participaram e fora, deles, amigo e camarada.


Em 1945, com o fim do Estado Novo, reaparece nos jornais, especialmente na mídia partidária, no órgão do PCB Tribuna Popular. Ali é mencionado como militante comunista, integrando uma “delegação de Itaperuna” que veio ao Rio assistir um comício de Luiz Carlos Prestes. A partir daí ele passa a ser conhecido como político comunista. Sua atuação o levou, nas eleições de 1946-1947, a um confronto permanente com a política tradicional do Estado do Rio, especialmente no norte e noroeste do Estado e na Baixada Fluminense



Membro do Comitê Estadual do PCB, nele desempenhou o papel de Secretário de Divulgação, de Massa e Eleitoral, cargos dos quais tinha muito orgulho, sendo também membro do CC nacional ampliado do Partido. Acumulou, logo depois, o cargo de Secretario Sindical do Comitê Distrital do PCB do Méier.


Comitê Estadual do PCB em 1946. Edgard Leite Ferreira o primeiro da esquerda, de branco. Entre outros, presentes na foto: Lincoln Cordeiro Oest, que seria assassinado pela ditadura em 1972, eleito então deputado estadual pelo PCB; Claudino José da Silva, primeiro negro eleito deputado federal; Paschoal Elidio Danielle, deputado estadual pelo PCB; Walkirio de Freitas, deputado estadual; Josias Ludolf Reis, deputado estadual, além de Benigno Fernandes e José Costa, militantes antigos do PCB, que tiveram atividade no Partido em meados dos anos 30.
Comitê Estadual do PCB em 1946. Edgard Leite Ferreira o primeiro da esquerda, de branco. Entre outros, presentes na foto: Lincoln Cordeiro Oest, que seria assassinado pela ditadura em 1972, eleito então deputado estadual pelo PCB; Claudino José da Silva, primeiro negro eleito deputado federal; Paschoal Elidio Danielle, deputado estadual pelo PCB; Walkirio de Freitas, deputado estadual; Josias Ludolf Reis, deputado estadual, além de Benigno Fernandes e José Costa, militantes antigos do PCB, que tiveram atividade no Partido em meados dos anos 30.
Santinho de Edgard Leite Ferreira nas eleições de 1947
Santinho de Edgard Leite Ferreira nas eleições de 1947

Tornou-se, a seguir, líder pioneiro do movimento sindical do funcionalismo público, eleito secretário-geral da União Nacional dos Servidores Públicos. Trabalhou intensamente por uma nova concepção do plano de cargos e salários que pudesse garantir e promover a qualidade do serviço público e uma remuneração adequada para o servidor. Introduziu novas propostas de organização da carreira funcional que acabaram, depois de décadas, sendo adotadas pelo Estado, principalmente no campo das remunerações progressivas e promoções por desempenho claramente definidas.




Essa jornada como ativista político e sindical criativo, fartamente documentada nos jornais da época (comunista e não comunista), permitiu a consolidação do movimento sindical dos servidores públicos e contribuiu também para fortalecer o PCB. Sua ação foi reconhecida pelo Partido, pois viajou várias vezes à União Soviética e ao leste europeu, para participar de eventos diversos, de Congressos sindicais a cursos de formação.


Moscou, 1 de maio de 1955
Moscou, 1 de maio de 1955

O ponto de inflexão em sua vida política parece ter sido 1956, por conta da realização do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Nesse Congresso fez-se, na Rússia, uma ampla denúncia das atrocidades do estalinismo e promoveu-se sua condenação política . O chamado "discurso secreto" de Nikita Kurschev, então secretário geral do PCUS, teve efeitos traumáticos sobre o movimento comunista e de esquerda mundiais, ao quebrar as ilusões que existiam sobre o que de fato havia ocorrido, e ocorria, na União Soviética.


Ao que se obedecia, quando se obedecia à URSS? perguntaram-se muitos. Porque se obedecia, aqui, às decisões do Partido sem o direito de críticá-las? Qual a responsabilidade pessoal, de cada um, na tragédia da ditadura estalinista? Se me move o sentimento de justiça, para salvar uma criança abusada, como posso ser cúmplice de prisões e fuzilamentos em massa? O escopo de todo esse movimento pode ser justo, mas está sendo realizado de forma correta? Assim pensou meu avô.


No meio dessa crise de cunho ético, moral e político de grande profundidade,Edgard Leite Ferreira, perplexo, com toda uma vida partidária atrás de si, voltou-se para o projeto de Juscelino Kubitscheck. Neste viu compromissos com a Nação e a sociedade: e passou a apoiá-lo. Tal não era, exatamente, uma posição do Partido, era a sua posição, que envolvia uma certa melancolia mas não o abandono .da esperança. Ao tornar clara sua atitude ele foi, quase que imediatamente, expulso do PCB, em meio a violentos ataques. Muitos destes públicos.


Edgard Leite Ferreira (centro), com o Presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira, aparentemente no Palácio Laranjeiras, Rio de Janeiro
Edgard Leite Ferreira (centro), com o Presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira, aparentemente no Palácio Laranjeiras, Rio de Janeiro

Meu avô escreveu uma carta aberta, dirigida aos servidores públicos, onde se defendeu de todas as acusações a ele dirigidas e defendeu sua posição.



"Ainda no primeiro de maio de 1959", disse, louvando o respeito que recebeu de Juscelino, "falando em Brasília, ao lado do Exmo. Sr. Presidente da República, em discurso amplamente irradiado, fiz o elogio da greve dos portuários de Recife, de cujo comando participei. Não sofri nenhuma advertência e, mais ainda, fui, como os demais oradores, cumprimentado por S. Excia. Declaro sinceramente que mesmo sob um ponto de vista político, sinto-me orgulhoso de servir a um Presidente que pelo seu valor de estadista, democrata e sobretudo de patriota, termina seu mandato prestigiado, acatado e estimado pela maioria dos brasileiros". E adiante, ao ser acusado de indisciplina partidária: "se essa é a minha indisciplina, continuarei com ela, certo de estar prestando aos meus colegas e a todos os partidos que desejam ver o povo organizado, um razoável serviço." E apontou a questão central do conflito: "a verdade é que nunca me foi feito um apelo nem proporcionada discussão honesta: o grupo que me calunia deseja a minha liquidação, como trabalha pela liquidação de todo aquele que tem opinião e a defende".


Mesmo expulso continuou ligado ao movimento sindical. Após 1964, foi incluído em mais de um IPM e pelo menos a um compareceu, para ser interrogado. Morreu em 1977, sem ver nem o final da União Soviética nem o colapso do regime militar. A questão é, novamente, o que aprendi com ele?


Primeiro, que o mais difícil na existência humana são as decisões, os atos da consciência. O fácil é que marchemos junto com outros, pensando como outros, sem decidir. A desobediência ou o exercício da liberdade, tem sempre um preço. Poucos avaliam o que fizemos de uma forma geral e como ajudamos os outros e a todos, mas apenas o ato da dissonância.


Segundo que, em que pese isso, a dissonância pode ter ganhos, se virtuosa. O principal é a descoberta do poder da liberdade, quando este nos torna melhores, e como isso é importante para a integridade da consciência, para vivermos em paz. Porque só assim podemos saber o que somos, o que são aqueles que nos cercam e o que é realmente o objeto de nossa decisão.


Terceiro, e isso já havia percebido Baruch Espinoza, ao romper com a sua comunidade religiosa, os atos de dissonância são atos afirmativos da pessoa. Podem levar à escravidão, quando envolvem vícios e violências, mas, principalmente, conduzem à liberdade, quando implicam em assumir posições virtuosas e corretas, íntegras: como era possível conciliar a sua vida com os crimes de Stálin? Com atos com os quais, em determinada dimensão, fora cúmplice e tendia a reproduzir?


Quarto, se virtuosas, as decisões dissidentes nos colocam em sinergia com outros virtuosos e ampliam nossa percepção do mundo e da vida. Isso também percebeu Baruch Espinoza.


Por fim, como meu avô dizia assim mesmo, é sempre importante perceber que sim, o homem é um animal político, de acordo com Aristoteles, mas que a política é arte do possível, da experiência da realidade e do aceitável; mas nunca a arte do impossível, do irreal e do inaceitável.


Meu avô, Edgard Leite Ferreira, eu, à direita, e meu irmão.
Meu avô, Edgard Leite Ferreira, eu, à direita, e meu irmão.

Bibliografia:


WOLLMANN, Luciana Pucu: "Da eleição à cassação: a atuação dos parlamentares comunistas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (1947-1948)"in Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. N.16, 2019, p.181-204

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