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A integridade da consciência e seus inimigos: uma explicação

Atualizado: há 1 dia


Palavras de Edgard Leite no dia do lançamento de seu livro A integridade da consciência e seus inimigos.


Estimadas Fabiola Fernandes e Vanessa Bezerra, estimados amigos:


Nos últimos anos tenho escrito livros que considero consistentes, diante de minha vida e de minhas pesquisas. Sempre me inquietaram, profissionalmente, alguns temas: as razões pelas quais se justificam os atos humanos; a natureza e alcance da liberdade da consciência; e, principalmente, a natureza da experiência da pessoa no tempo, diante do passado e do futuro, mas principalmente diante do momento presente. Décadas de reflexão culminaram, por isso, em uma série de cinco livros, escritos entre 2019 e 2022. Essa série teve início com Predadores: repensando o Brasil nos seus fundamentos morais (2019) e terminou com O despertar do sentido: formação espiritual do Brasil, das origens a finais do século XVIII (2022).


Percebi que não podia escrever sobre o passado das sociedades sem me aproximar da Filosofia e sem abandonar a perspectiva teológica, já que a finitude do mundo material convida à apreciação do infinito: apenas podemos perceber a natureza da transitoriedade quando intuímos, de alguma forma, o sem fim. Essas questões estão presentes nessa série de livros, artigos, conferencias e palestras proferidas entre 2019 e 2022, aplicadas, de uma ou outra forma, a temas de história contemporânea, principalmente do Brasil. Já então utilizava esses acontecimentos passados como metáforas, metonímias, sinédoques, para buscar entender a dinâmica das ações humanas, a grandeza de suas liberdades e limites e a relação que as pessoas estabelecem com a natureza desagregadora das coisas, medida pelo tempo.


Senti, portanto, a necessidade de um aprofundamento nas razões últimas e na substância desses temas, para mim misteriosos ao extremo. Nunca desvinculei esses estudos da minha vida e do que eu ia vivendo. Levado pelas circunstâncias, desempenhei atividades técnicas e profissionais diversas, onde pude observar muita coisa. Principalmente como as pessoas e o mundo funcionam de forma quase mecânica na repetição de atitudes e procedimentos. Também percebi como diferentes vícios, sempre de alguma forma gravitando em torno do poder, influenciam e deformam intenções. Então não é dizer que aprendi coisas sobre esses temas apenas nos livros, mas também em experiências diversas na vida, com as pessoas e observando a mim mesmo. Esses experimentos sempre me mostraram a existência de padrões e recorrências, mas, principalmente, o predomínio do império da surpresa, do extraordinário, do milagre, na vida.


A necessidade de ampliar esses estudos me levou a escrever Ensaios serenos: tópicos de crítica, teoria e metodologia (2023). Uma espécie de elenco de questões, que funcionou, para mim, como um mapeamento de objetos de estudo, unidos por um horizonte filosófico que comecei a definir em Predadores. O primeiro produto de Ensaios serenos foi A morada do Homem: um estudo sobre o Iluminismo (2024). Em A morada do Homem eu assumi uma perspectiva filosófica mais especulativa que analítica, tratando da questão do surpreendente e do extraordinário e seu papel neste momento em que vivemos, diante da realidade do tempo medido. Utilizei, para isso, críticas filosóficas que são feitas à ideia de milagre desde o Renascimento.


A partir de A morada do Homem Achei adequado tratar da questão do tempo diante da eternidade, ou dessa inflexão que leva a pessoa a dimensionar a transitoriedade a partir de uma sensação da infinitude. Assim escrevei Tempo, eternidade e sentido da vida (2025), no qual me inclinei mais claramente para alguma forma de apreensão teológica do entendimento das coisas, nas margens inexploradas da razão iluminista, cuja incompletude exige uma apreciação da substância e da imaterialidade. Mas me dei conta de que existia um problema adicional que era o da forma como a pessoa se situa diante das coisas, e como o faz, ou seja, como se molda sua própria consciência e como vem de dentro dela algum sentido. Elementos que substanciam suas ações no mundo.


Assim, escrevi este livro, A integridade da consciência e seus inimigos: um estudo de História da Filosofia. Que agora publico. Neste volume trato do problema da consciência numa perspectiva tomista, que me pareceu adequada: a consciência é o espaço da liberdade da pessoa. E numa dimensão romântica, a partir de Friedrich Schlegel, que também me pareceu pertinente no nosso tempo. Schlegel, de forma quase displicente, tratou da fragmentação ou dilaceramento da consciência no contato da pessoa com o mundo.


Nesse sentido procurei entender como a pessoa lida com a fragmentação de sua própria consciência. O tema é geral, universal e atemporal, mas no nosso tempo tem certas características: a presente dinâmica jurídica assegura o direito de introduzir um vazio na própria consciência, espelho de um suposto nada que fundamenta o mundo. Discuto como diferentes tendências filosóficas modernas trataram do assunto, normalmente tentando fugir do reconhecimento de substâncias imateriais, e eventualmente afirmando o eterno retorno das coisas. Ou como procuram estabelecer a ilusão sobre a existência de um acúmulo contínuo de energia num universo que é, assim paradoxalmente supõem, entrópico.


Trato do papel da universidade, dos pensadores e intelectuais na formação do pensamento que serve de base para as ações conscientes. Abordo o problema da tecnologia, a partir de Martin Heidegger, e como esta vai apreendendo para si a nossa capacidade de decisão. Processo este que nos enquadra em algo que permite tanto dissolver nossa pessoa quanto afirmá-la, se tivermos, como Heidegger propõe, a arte para isso.


Discuto, por fim, como este mundo em que vivemos é particularmente desafiador para a nossa consciência. Ao reafirmar a sua liberdade, nos convida, como nunca antes, a tomar decisões pertinentes. A vivência do vazio, em nós, é fonte de muitos prazeres e felicidades. Mas a experiência da plenitude e da eternidade nos coloca diante do amor: intenção pela (ou com a) qual, como artífices, construimos nossa obra da vida ao longo do tempo. Pelo amor tecemos os diferentes momentos diante de um sentido eterno, alcançamos a paz e integramos a pluralidade dos fragmentos de nossa consciência.


Esse livro coincidiu com a minha promoção a Titular em Filosofia da História. Agradeço a todos aqueles que me acompanharam nos últimos anos. Aos que estão aqui presentes e à minha editora, Paula Cajaty, evidentemente. Movido por tantos encontros, questões e acontecimentos, posso adiantar que meu próximo texto irá tratar do problema da narrativa histórica e seus paradoxos. Pois, como diz o Eclesiastes "escrever livros não tem fim”(12,12).


Com as Profas Fabiola Fernandes (esq.) e Vanessa Bezerra (dir.) na ABF
Com as Profas Fabiola Fernandes (esq.) e Vanessa Bezerra (dir.) na ABF

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